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domingo, 7 de dezembro de 2014

"Xau, tio, eu volto p'ra semana"

Foste e deixaste o silêncio. No ar, no balcão da cozinha, no gume da faca com que me ensinaste a picar cebola, nas tralhas perdidas no fundo das gavetas, a ladear os móveis e as pinturas e a refletir-se nas paredes.
Deixaste o vazio. A preencher o teu lugar à mesa, o banco do condutor, os sapatos debaixo da cama e as camisas no armário, as alianças de casamento e bodas de prata e um pedaço do meu coração.
Deixaste espaço a mais. Como se fosse suposto abrir um novo mar, onde não chove senão lágrimas. Como se nós as tivéssemos que chorar todas antes de a tristeza acabar e não houvesse forma da maré por fim encher.
O relógio da cabeceira está parado. O tempo ficou assim, diferente, passa de uma forma estranha. Às vezes não sei se passaram dias ou horas, se sonhei enquanto dormia ou se estava acordada, se já foste mesmo ou se ainda aqui estás.
É então que se ergue a imagem dos estranhos homens de gravata preta dentro da nossa casa, os que te levaram suspenso em quatro tábuas. Os vizinhos no hall de entrada, a ver-te sair. É então que sinto a tua testa gélida contra os meus lábios e me lembro que nunca voltarás.

sábado, 8 de novembro de 2014

O Primeiro

Eu gosto de ti.
Ouviste-me?
Eu gosto de ti.

Eu estou aqui.
Sentiste-me?
Eu estou aqui.

Eu vou ficar aqui.
Esperas?
Eu vou ficar aqui.

E, um dia, vou poder dizer que te amo.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Já ninguém sabe

Já ninguém sabe quem eu sou.
Sou turista na minha própria cidade. Esqueci o nome das ruas, os atalhos pelos becos sombrios e onde se fazem os melhores pastéis de nata. Perco-me nos caminhos e só chego ao destino por puro instinto. Talvez pelas memórias que tenho num sítio qualquer onde não consigo chegar voluntariamente.
Agosto traz a tristeza de voltar aos lugares que já não me pertencem. Traz a mágoa de ter que viver sozinha num lugar onde costumava ser feliz contigo. Talvez a cidade já não me abrigue como antes pelo simples facto de, aqui, teres sempre sido tu a possuir-me verdadeiramente. Não é a calçada gasta ou as fachadas escuras que fazem diferença, mas a falta da tua mão na minha. Não são as histórias alheias que as paredes guardam, mas as nossas apaixonadas conversas na soleira da porta. Aflige-me voltar para os nossos lençóis vazios e para estes rostos desconhecidos. Morro de saudades tuas.
Cansei-me de deambular pela cidade a ouvir línguas estranhas. Mesmo quando falam português, não falam a nossa língua. Ninguém me fala como tu falavas. Não voltei a querer agarrar a mão de ninguém na rua. 
Há coisas que serão sempre nossas; sempre tuas. Como o meu coração, a minha alma e a mais profunda essência de mim. Deixaste o resto para os outros: a carne e o pó. Quando morremos, morri para o mundo. Quando morri em ti, morri na minha vida. Já tu, és imortal dentro de mim.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Demónios

O meu cérebro tremia no mesmo comprimento de onda que o som daquele lugar. Aquele lugar inóspito. Os pés das pessoas agrediam o chão. E o pó levantava-se. O pó no ar. Nas nuvens. Espalhado na pele de todas aquelas pessoas. Aquelas pessoas desfiguradas. Vultos enegrecidos e manchados pela sujidade da atmosfera. Eu, pálida, da cor da cal, exposta a todos os meus demónios.
Os demónios moviam-se à minha volta, em trejeitos estranhos, como se dançassem ao som de outro mundo. O mundo dos meus espíritos mortos. A música fazia eco nos seus crânios vazios e voltava em lâminas contra o meu peito. Gotas de sangue que escorriam pelo meu corpo, como se fosse o suor de todas aquelas pessoas. Corri ao ritmo do barulho. Mas os meus pés estavam soldados ao chão, como se a força da gravidade fosse maior ali. Como se os demónios me queimassem a roupa para me prenderem pela pele. E as pessoas continuavam suspensas numa nuvem de pó.

Por entre as pessoas e os demónios vi o meu amor. O meu amor olhou-me, penetrou-me e viu-me a carne. Estendi-lhe a mão tatuada de um pó sangrento. O meu amor virou-me a cara e camuflou-se na multidão. Corri em nuvens de pó. E os meus demónios entrelaçavam-se nos meus membros como parte de mim. Num segundo parei e caí. As pessoas no pó morreram. Deixaram-me no mundo dos demónios que são meus. No mundo em que o meu amor não me dá a mão. No mundo em que de nada serve ter um coração.

sábado, 24 de maio de 2014

Ode ao amor

Ao amor que arde
Que me consome
Um bem-haja.

Desta vida não mais levarei
Só o amor
O amor que dói
Que dói sempre
Que me vive
Por o sentir
Nem que mais não haja.

O amor que ainda me faz chorar
Sem lágrimas
A lâmina fria
De te ver com outro corpo
O gume que me diz que tenho coração
E que ainda bate
Quando existes perto de mim.

Ao amor que destrói
Que me partiu
Um bem-haja.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um abraço frio

Abraços frios. Tudo o que tenho para te dar. Se não os quiseres levar contigo, deixa-me caída na cama despida de fervor, com o sol a entrar pela janela suja. Se os quiseres para ti, podes ficar perto de mim, tão perto que ouças os meus pensamentos. E eu os teus.
Fossem os cinco sentidos reais e eu fecharia os olhos para saber quando me tocas, para te sentir tão perto como se me arrancasses as vísceras. Se os nossos corpos ficassem à mesma temperatura, ouviria a tua respiração, como se te abraçasse os pulmões. Mandaria o vento parar e o mundo calar-se, só para te ver de longe e sorrir. E quando chegasses perto de mim, respirava fundo para ter a certeza que o teu perfume ia comigo pelo caminho.
Mas quem és tu? Existes no mesmo mundo que eu?
Mesmo que tu sejas tu, aqui onde eu estou, o amor que por ti tenho não sinto. Às vezes as pessoas não morrem quando o corpo pára. Vão morrendo gradualmente, por dentro, até que já nem elas são. Até já não sentirem nada. Até não haver mais nada para além de um monte de carne desconjuntado, quente como todos os outros e contudo frio como a brisa de uma montanha num dia de Inverno.

domingo, 18 de maio de 2014

Voltas

A minha alma é da cor do chumbo
Da meninice escarpada por alcatrão
Do desejo de inventar outro mundo
Que não magoasse tanto o coração.

Se ao seu corpo pudesse roubar dor
Que o meu peito gritasse em improviso!
Dar-lhe-ia tudo em mim e o amor
Que sei que tenho mas não preciso.

Se a ti pudesse roubar um momento
Um só mais, sem grades na janela
Dar-te-ia só um último olhar atento
Para te ver para sempre, em cada ruela.

Se o amor é isto, não quero um coração
Pois na minha alma sobeja o nobre azar,
De não me saberes segurar pela mão
Adeus, meu amor, porque me obrigas a amar.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Um dia

Há um dia foi mais um dia
Um daqueles dias
Com as mesmas horas
Daquelas que não passam
E se sentem os segundos
Afogados num conceptáculo vazio
Devagar, tão devagar.
Pensei em ti por existires
E de repente não existires mais
Pensei nos que já não existem
(Afinal o dia foi deles)
E nos que deixarão de existir
(Afinal todos os dias são deles)

Há um dia queria que fosse noite
Uma daquelas noites
Onde durmo profundamente
Não há tempo a passar
Nem sinto os segundos
Os sonhos dentro de um coração cheio
Devagar, tão devagar.
Não penso em ti porque existes
E existes sempre, noite após noite
Sento-me à mesa com os que já não existem
(Afinal as noites são deles)
E abraço os que deixaram de existir
(Afinal a minha vida é deles)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Quando chegaste, nem te vi. Estava demasiado alucinada com o fogo que não ardia dentro de mim; ocupada com a vontade insana de não estar aqui, de não ser, de não ter e de não sentir. Insistia em inebriar-me cada vez mais, para existir cada vez menos e ser tudo menos real. Para que nunca chegasse a parecer real sequer. Os meus dias eram copos vazios e cheios e cigarros acesos e apagados. Toques mundanos em corpos desconhecidos e nada mais. Não tinha nada que realmente valesse a pena.
Cresci mais em meses do que em toda a minha vida. E para quê? Para tudo ser real e doer mais. Para te ver no meio da multidão. Para tu seres real e continuares sem existir. Para tu seres uma dor aguda no meio da dor entorpecida. Para, de repente, tudo doer. E não haver nada a fazer, nada para mudar, nada aqui para mim. Só o tempo que falta até parte de mim morrer. O desespero de esperar que o mundo me caia em cima, sem sequer saber se até lá vale a pena sofrer. Se tu vales a pena. Se algum dia vais existir de verdade. Se algum dia vai realmente parar de doer.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vinte e poucos

Estava a conversar com um amigo sobre o drama de estar nos vinte e poucos. A rotina de passar mais tempo a distrair os amigos que tentam trabalhar do que a trabalhar de verdade; A vontade de desistir e a motivação para produzir algo oscilam em picos e vales como se estivéssemos a entrar na puberdade outra vez; o quanto esquecer o próprio nome no meio de um considerável teor de álcool se tornou normal.
Uma tese que não se escreve sozinha. O fino que não se bebe sozinho. A escolha é óbvia.
Aquele sentimento de nos terem mudado os órgãos todos de lugar durante o sono. Já tive a minha dose de vida aos vinte e poucos.
Pelo menos fazem-se amigos para a vida inteira.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

407 dias depois

Tudo aconteceu num momento da minha vida em que algo dentro de mim deixou de fazer sentido. Foi repentino e subtil, não há palavras que encaixem no que pretendo dizer. Como se me tivessem abordado durante o sono; como se me tivessem desmembrado e arrancado as vísceras e, no fim, voltassem a coser tudo no seu lugar. Sem que eu desse por isso. Eu era a mesma, mas algo estava diferente. Como se o ar que respiro se assemelhasse a centenas de agulhas longas e afiadas. E eu não podia simplesmente parar de respirar.
Na realidade, ela vive dentro de uma concha e nunca a abandona, espreita o mundo, apenas. E essa concha é feita de perguntas tímidas e respostas austeras. O coração que lhe fustiga o peito é tão grande que poderia salvar o Mundo. A textura das suas mãos é como água morna num dia cansado e o sorriso… O sorriso é como um dia de sol num Inverno rigoroso. Poderia continuar durante horas, mas que direito tenho eu de narrar o que não me pertence? 
Ninguém sabe o que ela é. Nunca a vi abrir-se, depois de me deixar entrar. Esconde-se atrás toques superficiais, conversas mundanas e gargalhadas momentâneas. Mas e tudo o que eu sei que ela tem por baixo da pele? Entranhou-se bem fundo, na carne. Ninguém vê o que eu vi. Na altura não entendi o que lhe estava a fazer. Não percebi que a estava a arruinar. Nem tão pouco sabia que um ser humano pode destruir outro para sempre, sem que haja forma de voltar atrás.
Resta apenas a sombra daquilo que fomos, eu e ela. Restam os lençóis por onde ela vagueia, os corpos que não são o meu. Resta-me saber tudo o que ninguém sabe, enquanto a vejo vaguear. Restam-me os copos vazios e os cigarros no cinzeiro.
Não há vestígio de raiva em mim. Apenas dói, como se me tivessem esfaqueado. E a dor é grande e inevitável. Durante muito tempo, pensei que sabia o quanto ia doer – nunca pela cabeça me passou que não fosse doer –, mas estava errada. É como se tivesse entrado numa tempestade da qual não acredito conseguir sair. Se, pelos deuses, algum dia sair, não será mesma pessoa a caminhar sobre a Terra.
Será que ela vai recordar o tempo em que lhe segurei a mão? Será que vai apenas recordar as palavras ácidas que lhe dei? Ou será que não me vai recordar de todo?
Se ela me recordar, não me importa se todos os outros me esqueçam.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A sala está vazia
Destruí os móveis
Rasguei as cortinas
Parti os copos
Cheios de vinho
Bebi-os a todos
Golo por golo
Lágrima por lágrima
Até já não existir
Até já não haver pensamento
Que caiba dentro de mim
Ouvi os cigarros a arder
Um atrás do outro
Cai no chão vazio de cinza
Fiquei ali deitada
Até já não ouvir nada
Até já não saber nada
Esperando que o tempo
Me engolisse na terra
Ou cessasse.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

“A cidade está deserta, alguém escreveu o teu nome em toda a parte”

Tenho por hábito voltar para casa de madrugada. Quando finalmente inspiro a coragem de vestir o casaco e enfrentar o caminho até casa, já nem carros passam nas ruas. As pessoas que se cruzam comigo no passeio são quase tão raras quanto a quantidade de vezes que vejo sol, nestes dias de Inverno. Por norma, vejo-me acompanhada pelas luzes dos postes de iluminação pública. Essas, felizmente, nunca me deixam caminhar sozinha.
Independentemente de tudo isso, o que aconteceu a esta cidade? Estás em todo o lado. Os motivos da calçada portuguesa transpiram o teu nome. Confundo as árvores do jardim com a tua silhueta. Respiro o teu perfume na chuva. Umas vezes mais ébria do que sã, outras mais sóbria do que alienada… A verdade é que desespero por parar de te ver, por seres tudo aquilo que realmente desejo contemplar.
Não estás em lado nenhum e contudo vejo-te até de olhos fechados.