Foste e deixaste o silêncio. No ar, no balcão da cozinha, no
gume da faca com que me ensinaste a picar cebola, nas tralhas perdidas no fundo
das gavetas, a ladear os móveis e as pinturas e a refletir-se nas paredes.
Deixaste o vazio. A preencher o teu lugar à mesa, o banco do
condutor, os sapatos debaixo da cama e as camisas no armário, as alianças de
casamento e bodas de prata e um pedaço do meu coração.
Deixaste espaço a mais. Como se fosse suposto abrir um novo
mar, onde não chove senão lágrimas. Como se nós as tivéssemos que chorar todas
antes de a tristeza acabar e não houvesse forma da maré por fim encher.
O relógio da cabeceira está parado. O tempo ficou assim,
diferente, passa de uma forma estranha. Às vezes não sei se passaram dias ou
horas, se sonhei enquanto dormia ou se estava acordada, se já foste mesmo ou se
ainda aqui estás.
É então que se ergue a imagem dos estranhos homens de
gravata preta dentro da nossa casa, os que te levaram suspenso em quatro tábuas.
Os vizinhos no hall de entrada, a
ver-te sair. É então que sinto a tua testa gélida contra os meus lábios e me
lembro que nunca voltarás.