Hoje não é um bom dia para o silêncio.
Os sons fecham-se só para eu ouvir a sua voz; para me lembrar que a esqueci. Só
passou um ano? Já passou um ano? Um ano de saudade, um ano de silêncio. Um ano
depois do que parece que aconteceu ontem.
Começo agora a lembrar-me de nós.
Do primeiro acorde que ele me ensinou; das tardes no sofá, dos risos e das cantigas;
das idas para a escola; das fugidas à socapa; de comparar o tamanho das nossas
mãos; de querer crescer até à sua altura; de lhe chamar moi; do bigode farfalhudo
e a covinha na bochecha a sorrir para mim.
Lembro-me do silêncio sentenciador
que partilhávamos, quando toda a família se juntava à mesa; de lutar pela
cadeira do seu lado direito; de querer oferecer-lhe toda a vida que havia em
mim.
Lembro-me dos nossos segredos e
nunca os partilharei.
Lembro-me de tudo e ainda assim
esqueci a sua voz.
Esquecesse eu a morte e a forma
de morrer; o cheiro e a meia-luz da enfermidade; o ápice de lucidez em que
dissemos adeus; a última vez que demos as mãos; a cabeça sem cabelo e os ossos
cravados na pele; as conversas sem sentido; o esquecer-se de mim.
Esquecesse eu a ausência no
último suspiro; os homens que o levaram suspenso; o fato de um verde morto; o
perfume das flores e a privação de ar; o chão repleto de pés e pessoas,
frenéticos e incansáveis; a sua testa nua e gélida nos meus lábios; o lacrar
das tábuas e o cair da terra.
Esquecesse eu tudo para relembrar
a sua voz.