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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Um ano

Hoje não é um bom dia para o silêncio. Os sons fecham-se só para eu ouvir a sua voz; para me lembrar que a esqueci. Só passou um ano? Já passou um ano? Um ano de saudade, um ano de silêncio. Um ano depois do que parece que aconteceu ontem.
Começo agora a lembrar-me de nós. Do primeiro acorde que ele me ensinou; das tardes no sofá, dos risos e das cantigas; das idas para a escola; das fugidas à socapa; de comparar o tamanho das nossas mãos; de querer crescer até à sua altura; de lhe chamar moi; do bigode farfalhudo e a covinha na bochecha a sorrir para mim.
Lembro-me do silêncio sentenciador que partilhávamos, quando toda a família se juntava à mesa; de lutar pela cadeira do seu lado direito; de querer oferecer-lhe toda a vida que havia em mim.
Lembro-me dos nossos segredos e nunca os partilharei.
Lembro-me de tudo e ainda assim esqueci a sua voz.
Esquecesse eu a morte e a forma de morrer; o cheiro e a meia-luz da enfermidade; o ápice de lucidez em que dissemos adeus; a última vez que demos as mãos; a cabeça sem cabelo e os ossos cravados na pele; as conversas sem sentido; o esquecer-se de mim.
Esquecesse eu a ausência no último suspiro; os homens que o levaram suspenso; o fato de um verde morto; o perfume das flores e a privação de ar; o chão repleto de pés e pessoas, frenéticos e incansáveis; a sua testa nua e gélida nos meus lábios; o lacrar das tábuas e o cair da terra.
Esquecesse eu tudo para relembrar a sua voz.

sábado, 5 de setembro de 2015

Dicotomias de um não

É-me fácil dizer não.
Não me lembro; Não me apetece;
Não quero; Não vou;
Não sei.
Não sou.
Entristece-me ouvir não. Enfurece-me, às vezes.
Não me lembro de ti; Não me apetece ver-te;
Não te quero; Não vou contigo;
Não sei quem és.
Não sou tua.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Um banco num jardim

As cidades destes tempos são feitas de jardins. Lembraram-se agora que as árvores e os insectos são mais importantes que leões e tigres enjaulados. O problema desses jardins é o excesso de simetria. A natureza não tem espaço para crescer como lhe apetece. Achamos que a podemos ensinar a ser, tal e qual fazemos uns com os outros.
O rio vai continuar a correr para o mar e, contra isso, nada podemos fazer. Ainda assim, há às vezes a ilusão de que desliza para a montanha, torna-se difícil orientar os sentidos e correr para o lugar certo. Apesar de tudo, nestes jardins, as pessoas movem-se devagar. Os passos são lentos, como se as pernas discutissem constantemente para que lado é o Norte. Deslocam-se num compasso muito especial, quase como se caminhassem ao som de um Nocturno de Chopin. Os braços vão balançando alternadamente em redor dos corpos, os cabelos esvoaçam e por vezes encobrem os rostos. Algumas destas pessoas até sorriem e dão as mãos.
Por mais que a caminhada seja lenta, há bancos em todo o lado. Há velhotes sentados, com ambas as mãos apoiadas em bengalas de madeira, como se mesmo em repouso precisassem de ajuda para suportar o peso e a idade. Conversam e gesticulam, soltam gargalhadas sonoras que se fundem com o ruído dos chafarizes. Há casais que dividem metade de um só banco; há amigos que se estendem na relva; há passeios com cães; há atletas; há os que mascaram a solidão no ecrã de um smartphone; há os que passam e os que, como eu, vêm estes jardins como um sítio onde é permitido existir sozinho.
As pessoas de agora têm mais fobia de serem vistas sozinhas do que da própria solidão. O que seria de nós se o resto do mundo percebesse que estamos sozinhos? Valem mais as conversas vazias de uma mesa de café do que os diálogos inóspitos que só acontecem dentro da nossa cabeça.
As pessoas vão aos jardins para rir e para chorar, para abraçar e discutir, para pensar e parar de pensar. Talvez o intuito dos jardins não seja manter a natureza no meio de nós. Talvez eu mesma me sirva de um falso bucolismo para pôr os pés no chão e interromper uma deriva na estratosfera, sem saber se me deixe ser engolida pela Terra ou me perca no espaço.
Sento-me em bancos de jardim demasiadas vezes. Acho que o faço na esperança de um dia me levantar e deixar a saudade, a raiva e o amor sentados lado a lado. Por vezes, sento-me e sinto-me um ser humano e levanto-me como um corpo. Mas eles não ficam sentados, antes correm atrás de mim e não se deixam enganar pela corrente. Assim que enfio a chave na fechadura da porta de casa, já eles me possuíram outra vez. Espero um dia deixar de precisar de jardins. Porque, para mim, os jardins foram feitos para “sentir tudo de todas as maneiras”.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Soubesses tu

Já reparaste que ainda respiramos? Ainda vivemos. Ainda somos.
Posso gritar contigo e tu podes gritar comigo. Podemos agarrar-nos de ódio e abraçar-nos de amor. Podemos ser felizes e tristes em conjunto, como se fôssemos só um corpo. Ainda podemos amar com palavras e conversar com o corpo. Podemos discordar e nunca chegar a um consenso, podemos pegar-nos ao colo e empurrar-nos contra a parede. Podemos achar as pessoas ridículas e ser o centro do nosso mundo. Enquanto respirarmos o mesmo ar, ainda podemos ser felizes.
Não somos como os que já não respiram, que já não vivem nem são nada para além de uma recordação, para além da carne gélida e dos ossos cobertos de pó. 
Soubesses tu o quanto eu dava para lhes poder gritar, para os ouvir gritar de volta, para discordar, para discutir a Origem das Espécies e a Guerra do Ultramar... Já nem pedia que me pegassem ao colo, nem que me abraçassem ou me fizessem sentir segura. Contentava-me com os gritos e a normalidade de existirem. Queria apenas poder estar, poder sentir, poder alguma coisa.
Poder, como posso contigo, porque ainda estás quente e ainda consigo ouvir o teu coração a bater. Poder deixar de ouvir a voz que me diz que vai sempre doer, até tudo deixar de valer a pena.
Soubesses tu o que é para mim falar de amor - a ti e a eles - e ter sempre o mesmo silêncio de volta... Dar-me-ias os gritos, pelo menos. Soubesses tu o quanto é para mim poder ouvir o teu coração a bater!

domingo, 17 de maio de 2015

As pessoas

As pessoas são monstros. São canibais e devoram-nos vivos.
As pessoas já não têm garra, já não lutam; As pessoas já só têm garras, já só magoam.
As pessoas morrem, de corpo ou de alma. E nós ficamos aqui, incessantemente à procura delas, desesperados, sozinhos, às cegas, como se tivéssemos sido enterrados nos escombros de uma cidade, depois de um terramoto.
Por baixo da pele somos todos hediondos e detestáveis. Uns mais do que outros. Animalescos e sem a inocência da irracionalidade. As pessoas são pérfidas, repulsivas, perversas.
Os leões e os tigres atacam por instinto, os cães mordem para se protegerem; os lobos matam por terem fome e as raposas vivem entre nós por não saberem mais. As pessoas magoam por saberem demais, por quererem, porque existem e porque são más. As pessoas magoam por morrerem. As pessoas magoam.
De nada serve o amor. Já nem se sente, já nem se vive, já nem existe. Só o ódio, a mágoa, a ira, o rancor… E o cansaço.
E o coração apenas serve para bombear o rasto de sangue que conduz à demência. Cada gota de insensatez, no atrasado caminho do tentar mais uma vez. Tentar até não haver nada. Até não haver sangue, nem raiva, nem corpos, nem almas. Tentar até sermos um desses gatos vadios que foge antes sequer de saber se pode ou não confiar.

terça-feira, 12 de maio de 2015

"O amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura"

Um dia, esta doença ainda me mata. Tem-me consumido, mas há anos que me mantém viva. É o que inspiro e expiro, o que como, o que durmo, o que dói e o que rejubila. Eram os meus sonhos e os meus pesadelos, as minhas gargalhadas e as minhas lágrimas, a razão por que vivia e porque ainda não morri. Foi o sangue que me correu quente nas veias, o abraço apertado que senti com os pulmões, a força bruta de uma explosão que cá dentro nunca cessou. É agora um parasita que só não mata o hospedeiro por não querer morrer também.
O amor é para sempre. O amor de verdade. O amor único. O amor que morde. O amor que parte. O amor que sangra. O amor que dói. O amor que consome. A doença que mata. Como se a morte e o amor estivessem à distância de um braço e apenas um me estendesse a mão.
É a enfermidade de cair no vazio, de não saber sentir mais nada, de não haver outra senão aquela, aquela que já não ama, que já não quer, que já me deixa morrer.
O sono que nunca chega. A fome que nunca vem. Podia até alimentar-me de bisnagas insípidas. Só para morrer mais lentamente e ter tempo de dizer adeus - como outros não me disseram a mim. Aos outros, aos que ainda amam e que ainda querem.
O amor é a doença que me mata.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O meu amor tem que ser

Pragas, sangue, carne. Fogos nas matas, labaredas do tamanho de prédios. Edifícios destruídos, ruínas pelas ruas. Aos gritos sucedeu o silêncio morto, depois da vaga do crepitar do lume ter embalado os ruídos do caos. Embalaram, balançaram, caíram num sopor perpétuo. Porque as pessoas já não amam. Nem tão pouco comunicam. Não se abraçam nem se sentam à mesma mesa para jantar. Não sabem sequer que existem, metabolizam a consciência e o pensamento da mesma forma que respiram, produzem gâmetas e comem. Porque tem que ser. Porque estão formatados para isso, mesmo sem ninguém lhes ter ensinado nada. Deixaram de enterrar os corpos, deixam-nos espalhados em valas cobertas de abutres. Abutres que se alimentam das vísceras do que já não vive, do que nem tempo teve para dizer adeus.
Há muito que o meu mundo caminha lentamente para o torpor inóspito da falta de sentido de viver. Fosse eu antes como tudo o que nem sabe que existe. Mas verdade seja dita, o meu mundo ruiu apenas quando percebi que não éramos capazes de voltar; quando perdi a esperança em nós. Até lá a dor tinha uma razão de ser: sentir tudo de uma só vez para ser feliz. Contigo. Talvez o problema seja meu, como tu dizes. Talvez eu não saiba ser feliz, talvez destrua tudo de bom à minha volta. Pudesse eu controlar o buraco vazio que deixaste na minha vida, pudesse eu sarar todos os buracos que já me fizeram no coração e eu não seria assim. Triste, vazia, espinhosa, enfurecida. Mas agora o meu mundo são pragas, sangue e carne. Não tenho porque sarar as feridas, não tenho porque lutar, não preciso sequer de força porque tudo está perdido. Eu própria me perdi quando te perdi.
O meu amor por ti é mais verdadeiro que o sangue que me corre nas veias. A saudade é insuportável. Prometi que não voltava a falar-te e é por isso que te escrevo. E escrever-te-ei enquanto as minhas mãos forem capazes de traduzir o que sinto por ti.
Mesmo quando for eu o corpo na vala, a servir de alimento aos abutres, vou continuar a amar-te com a intensidade do nosso primeiro beijo. Nem que arda com a floresta, nem que desabe com os edifícios ou que todo o mundo já não ame, eu nunca saberei parar de te amar. Porque o meu amor por ti tem que ser.

domingo, 1 de março de 2015

Morro aqui, de amor por ti

Morro aqui, de amor por ti.
Meu amor, minha alma a quem pertenço.
És o labirinto onde me encontrei, o trilho que seguiria de olhos vendados e mãos atadas. És o fio que me liga ao mundo, a voz que sempre me segue, as muralhas que me separam do caos.
És a minha carne e o sangue que a alimenta. És a gravidade que me mantém aqui. O sol que me aquece. A lua que vejo pela janela.
És tudo o que bate no meu peito. És a vida que eu poderia ter.
És o lugar vazio da cama, és a ausência no chuveiro, o robe pendurado na porta e a gargalhada que poderia ter dado.
És a felicidade que poderia ter vivido.
És a encruzilhada onde me perdi.
Sou o abismo onde me deixaste.
Meu amor, que eu parti, que me partiu.

Saberás, um dia, que morri por ti. Que morri aqui, de amor por ti.