Hoje escrevo para alguém. Só não sei quem é a personificação desse alguém, mas… Que fique enterrada toda a sensibilidade que me é característica, sejamos objectivos!
Estou de volta a Coimbra. Esta cidade sempre me presenteou com uma enorme vontade de escrever, pena é que nunca pelos melhores motivos… Desta vez não é bem assim. Não me apetece escrever rigorosamente nada. Não que as ideias não surjam, ou que não tropece numa metáfora que não lembra a ninguém em cada esquina… É mesmo falta de vontade. Falta de vontade de tudo. Isto é tudo demasiado estranho.
Biologia. É o meu novo curso. Este é para continuar – e acabar! – só porque finalmente encontrei algo que realmente gosto. Gosto de bichinhos, gosto das cadeiras, estou motivada… E acho que me vou cingir à parte académica da questão, que se te falasse da maneira como me tenho sentido em relação ao resto, lá se ia o meu ar seguro e confiante.
A minha nova casa: Jardim Botânico. É fresco, ouvem-se aqueles barulhinhos de fundo de uma natureza a nascer e renascer a cada minuto…. Estar aqui sozinha é estranho, mas talvez não tivesse esta paz se assim não fosse. Talvez até tenha uma alma invisível, sentada ao meu lado, a sussurrar-me palavras de alento, paz e liberdade.
Coimbra tem acordado com nevoeiro, o cenário é perfeito. Acordo cedo, apanho o 27 ou o 6 para a Praça da Republica e dirijo-me aos anfiteatros. Pelo caminho, trinco qualquer coisa e cumprimento o Senhor Simpático da tabacaria. É uma rotina como outra qualquer… Sinto-me eu outra vez, por ter objectivos definidos e o futuro me dar alguma esperança. Em contrapartida, há outras coisas que me tiram a essência. Uma delas é passar horas sem libertar um único som, como se tivesse perdido a capacidade de articular palavras e formar frases com sentido. Não há-de ser assim para sempre. Um dia vou deixar de me reduzir ao meu silêncio, vou deixar de ser alguém para voltar a ser a Janine.
Espero um dia ser feliz, aqui.
Com um arrepio na espinha e um olhar vago,
Janine.
Ela vive para sempre. Contudo, repousa numa câmara de ar fértil. E, se sacudida do seu torpor, ergue-se para escrever. O que escreve?
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domingo, 26 de setembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Caminhar sozinha
Há uma diferença descomunal entre caminhar sozinha aqui ou lá. Caminhar sozinha devia ser apenas isso, mas toma significados completamente diferentes, dependendo da história da calçada que os meus passos esmagam, com aquela monótona cadencia.
Aqui, caminhar é um meio para atingir um fim; lá, caminhar é já o fim, um fim. O acto é o mesmo, o corpo e os seus movimentos inconscientes são exactamente os mesmos. O que muda é o cenário… Acreditem ou não, um cenário pode mudar tudo.
Hoje aqui estou eu, a caminhar sozinha nestas ruas inundadas de um ar diferente, cheio de algo indefinido. Gostava de saber dizer mais, mas só sei que é algo que ainda me satisfaz os pulmões e a alma na totalidade. Como se tudo isto fosse um canto de planeta onde a poluição não chegou...
Senti um cheiro leve a erva cortada de fresco e inspirei profundamente, só para ter a certeza que não era só o meu subconsciente a pregar-me uma partida. Olhei em volta à procura do típico jardineiro municipal com a sua maquineta estranha. Não se encontrava ao alcance da força dos meus olhos, mas tive a certeza que algures ali perto, estava o homem de jardineiras verdes e fitas reflectoras. Conheço isto melhor que a palma das minhas mãos.
Acho que é este algo que define o termo casa. Consigo sentir-me protegida, sem sequer me ver rodeada de muralhas.
Lá é diferente. A erva cortada de fresco não tem o mesmo cheiro. Os jardineiros não têm histórias para contar… O ar não me enche os pulmões, chego a sentir-me a asfixiar. Pode até ser só paranóia minha, mas o oxigénio parece mais pesado e a atmosfera exerce uma pressão mais elevada sobre a minha cabeça, como se me pudesse fazer implodir a qualquer momento. Não me sinto protegida, nem debaixo dos lençóis, com a cabeça coberta. Sou um animal arrancado do seu habitat natural sem pré-aviso.
Acho que só a chuva tem o mesmo sabor. As paredes e as ruas têm alma, é verdade que têm. E é igualmente verdade que consigo caminhar acompanhada, tal é a quantidade de almas que se entrelaçam com a minha a cada pestanejar… É tudo uma questão de perspectiva. Mas - e isto posso assegurar, independentemente da perspectiva – não há nada como regressar a casa.
Aqui, caminhar é um meio para atingir um fim; lá, caminhar é já o fim, um fim. O acto é o mesmo, o corpo e os seus movimentos inconscientes são exactamente os mesmos. O que muda é o cenário… Acreditem ou não, um cenário pode mudar tudo.
Hoje aqui estou eu, a caminhar sozinha nestas ruas inundadas de um ar diferente, cheio de algo indefinido. Gostava de saber dizer mais, mas só sei que é algo que ainda me satisfaz os pulmões e a alma na totalidade. Como se tudo isto fosse um canto de planeta onde a poluição não chegou...
Senti um cheiro leve a erva cortada de fresco e inspirei profundamente, só para ter a certeza que não era só o meu subconsciente a pregar-me uma partida. Olhei em volta à procura do típico jardineiro municipal com a sua maquineta estranha. Não se encontrava ao alcance da força dos meus olhos, mas tive a certeza que algures ali perto, estava o homem de jardineiras verdes e fitas reflectoras. Conheço isto melhor que a palma das minhas mãos.
Acho que é este algo que define o termo casa. Consigo sentir-me protegida, sem sequer me ver rodeada de muralhas.
Lá é diferente. A erva cortada de fresco não tem o mesmo cheiro. Os jardineiros não têm histórias para contar… O ar não me enche os pulmões, chego a sentir-me a asfixiar. Pode até ser só paranóia minha, mas o oxigénio parece mais pesado e a atmosfera exerce uma pressão mais elevada sobre a minha cabeça, como se me pudesse fazer implodir a qualquer momento. Não me sinto protegida, nem debaixo dos lençóis, com a cabeça coberta. Sou um animal arrancado do seu habitat natural sem pré-aviso.
Acho que só a chuva tem o mesmo sabor. As paredes e as ruas têm alma, é verdade que têm. E é igualmente verdade que consigo caminhar acompanhada, tal é a quantidade de almas que se entrelaçam com a minha a cada pestanejar… É tudo uma questão de perspectiva. Mas - e isto posso assegurar, independentemente da perspectiva – não há nada como regressar a casa.
sábado, 11 de setembro de 2010
Chamo-me Chuva, disse ela
Às vezes acho que existe alguma coisa a usar o meu cérebro como saco de pancada. É uma sensação que vacila entre o estimulante e o doloroso… como se os meus neurónios estivessem a levar choques eléctricos a cada três segundos, mas esses choques fossem essenciais para a minha sobrevivência. Sinto que os choques são o meu combustível racional; Sinto que me vão consumindo cada pedaço de massa encefálica com pensamentos de tudo e nada. É por isso que costumo andar com a cabeça demasiado cheia. A maioria das pessoas diz que apenas sou distraída. Talvez tenham razão.
Gosto de chuva. Gosto que de acordar com aquela tenebrosa atmosfera cinzenta. Gosto de olhar pela janela e ver aquela ameaça eminente que o céu agitado representa.
Abro a porta da entrada, inspiro aquele ar fresco e saio para a rua. Tenho por hábito sentar-me no lancil de cimento, à espera que chova. Literalmente à espera que chova. O cimento é desconfortável, mas tem alguma coisa que me atrai. Talvez seja só como o meu cérebro e os seus choques frenéticos. Cruzo as pernas, expiro num suspiro e apoio o queixo entre as mãos. Nessa altura já a minha cabeça está a funcionar a mil por segundo. Chego a ponderar a hipótese de ter algum parasita a correr a maratona à volta do meu cérebro. À volta, à volta, à volta… Fico atordoada, a dor torna-se excruciante. Parece que vivo e revivo maus momentos, tudo dentro de mim, dentro da minha cabeça, dentro do meu peito. Os maus afogam os bons, é como se já não existissem. É como se eu me estivesse a afogar dentro de mim! É como se os meus pulmões implodissem e o coração deixasse de pulsar o sangue!
E, aí, cai a primeira gota de chuva. Sinto-a no ombro, na perna, na cara, não importa. Importa, sim, que a senti chegar. Os pensamentos, os sentimentos, a dor, a agonia, a angústia, o aperto no peito... tudo fica reduzido a nada. Levanto-me, caminho de olhos fechados, levanto a cabeça e sinto as gotas a acariciarem-me a cara. Abro os braços, começo a andar à volta. À volta, à volta, à volta… Sinto-me livre e leve. É como se a chuva tivesse ligado o meu cérebro ao meu coração e tudo dançasse em uníssono! O meu corpo deixa de ser um pedaço de carne desconjuntado e transforma-se num organismo. A minha alma desce com a chuva e, por breves momentos, junta-se ao meu corpo, outra vez! A chuva é o antídoto natural para o meu veneno.
Chuva, por favor, fica. O sol pode voltar noutro dia, noutro dia qualquer.
Gosto de chuva. Gosto que de acordar com aquela tenebrosa atmosfera cinzenta. Gosto de olhar pela janela e ver aquela ameaça eminente que o céu agitado representa.
Abro a porta da entrada, inspiro aquele ar fresco e saio para a rua. Tenho por hábito sentar-me no lancil de cimento, à espera que chova. Literalmente à espera que chova. O cimento é desconfortável, mas tem alguma coisa que me atrai. Talvez seja só como o meu cérebro e os seus choques frenéticos. Cruzo as pernas, expiro num suspiro e apoio o queixo entre as mãos. Nessa altura já a minha cabeça está a funcionar a mil por segundo. Chego a ponderar a hipótese de ter algum parasita a correr a maratona à volta do meu cérebro. À volta, à volta, à volta… Fico atordoada, a dor torna-se excruciante. Parece que vivo e revivo maus momentos, tudo dentro de mim, dentro da minha cabeça, dentro do meu peito. Os maus afogam os bons, é como se já não existissem. É como se eu me estivesse a afogar dentro de mim! É como se os meus pulmões implodissem e o coração deixasse de pulsar o sangue!
E, aí, cai a primeira gota de chuva. Sinto-a no ombro, na perna, na cara, não importa. Importa, sim, que a senti chegar. Os pensamentos, os sentimentos, a dor, a agonia, a angústia, o aperto no peito... tudo fica reduzido a nada. Levanto-me, caminho de olhos fechados, levanto a cabeça e sinto as gotas a acariciarem-me a cara. Abro os braços, começo a andar à volta. À volta, à volta, à volta… Sinto-me livre e leve. É como se a chuva tivesse ligado o meu cérebro ao meu coração e tudo dançasse em uníssono! O meu corpo deixa de ser um pedaço de carne desconjuntado e transforma-se num organismo. A minha alma desce com a chuva e, por breves momentos, junta-se ao meu corpo, outra vez! A chuva é o antídoto natural para o meu veneno.
Chuva, por favor, fica. O sol pode voltar noutro dia, noutro dia qualquer.
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