O meu cérebro
tremia no mesmo comprimento de onda que o som daquele lugar. Aquele lugar
inóspito. Os pés das pessoas agrediam o chão. E o pó levantava-se. O pó no ar.
Nas nuvens. Espalhado na pele de todas aquelas pessoas. Aquelas pessoas
desfiguradas. Vultos enegrecidos e manchados pela sujidade da atmosfera. Eu, pálida,
da cor da cal, exposta a todos os meus demónios.
Os demónios
moviam-se à minha volta, em trejeitos estranhos, como se dançassem ao som de
outro mundo. O mundo dos meus espíritos mortos. A música fazia eco nos seus
crânios vazios e voltava em lâminas contra o meu peito. Gotas de sangue que escorriam
pelo meu corpo, como se fosse o suor de todas aquelas pessoas. Corri ao ritmo
do barulho. Mas os meus pés estavam soldados ao chão, como se a força da
gravidade fosse maior ali. Como se os demónios me queimassem a roupa para me
prenderem pela pele. E as pessoas continuavam suspensas numa nuvem de pó.
Por entre as pessoas
e os demónios vi o meu amor. O meu amor olhou-me, penetrou-me e viu-me a carne.
Estendi-lhe a mão tatuada de um pó sangrento. O meu amor virou-me a cara e camuflou-se
na multidão. Corri em nuvens de pó. E os meus demónios entrelaçavam-se nos meus
membros como parte de mim. Num segundo parei e caí. As pessoas no pó morreram.
Deixaram-me no mundo dos demónios que são meus. No mundo em que o meu amor não
me dá a mão. No mundo em que de nada serve ter um coração.
1 comentário:
Gostei muito, Janine. :)
Beijo.
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