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terça-feira, 24 de junho de 2014

Demónios

O meu cérebro tremia no mesmo comprimento de onda que o som daquele lugar. Aquele lugar inóspito. Os pés das pessoas agrediam o chão. E o pó levantava-se. O pó no ar. Nas nuvens. Espalhado na pele de todas aquelas pessoas. Aquelas pessoas desfiguradas. Vultos enegrecidos e manchados pela sujidade da atmosfera. Eu, pálida, da cor da cal, exposta a todos os meus demónios.
Os demónios moviam-se à minha volta, em trejeitos estranhos, como se dançassem ao som de outro mundo. O mundo dos meus espíritos mortos. A música fazia eco nos seus crânios vazios e voltava em lâminas contra o meu peito. Gotas de sangue que escorriam pelo meu corpo, como se fosse o suor de todas aquelas pessoas. Corri ao ritmo do barulho. Mas os meus pés estavam soldados ao chão, como se a força da gravidade fosse maior ali. Como se os demónios me queimassem a roupa para me prenderem pela pele. E as pessoas continuavam suspensas numa nuvem de pó.

Por entre as pessoas e os demónios vi o meu amor. O meu amor olhou-me, penetrou-me e viu-me a carne. Estendi-lhe a mão tatuada de um pó sangrento. O meu amor virou-me a cara e camuflou-se na multidão. Corri em nuvens de pó. E os meus demónios entrelaçavam-se nos meus membros como parte de mim. Num segundo parei e caí. As pessoas no pó morreram. Deixaram-me no mundo dos demónios que são meus. No mundo em que o meu amor não me dá a mão. No mundo em que de nada serve ter um coração.

1 comentário:

Profeta disse...

Gostei muito, Janine. :)
Beijo.