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quinta-feira, 30 de julho de 2009

O regresso

Só mais Raios e pessoas


Já não sabia como era…
Vazia e extenuada,
À volta de uma esfera,
Vazia e desarticulada.

No peito há pressão,
Que dói a respirar.
A mente é um turbilhão,
Que dói a cogitar.

A incapacidade intermitente
Numa luz ofuscante
Que se apaga sendo ardente.
Já nada é cintilante…

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sombra



Sputnik
"Alguém se lembrou de me inscrever numa longa caminhada. Eu não sabia de nada, fizeram tudo nas minhas costas… E ainda dizem que só cá cheguei porque fui a “mais rápida e forte”. Não estava preparada, tiveram que esperar por mim dois longos dias. No entanto, quando me viram a dar início à jornada, não me recriminaram por demorar tanto; ofereceram-me um sorriso como nunca voltei a ver igual.
Os primeiros quilómetros foram demasiado fáceis. O caminho era plano, de um alcatrão acabado de prensar. Dada a minha inexperiência, todos faziam questão de me ajudar. Pegavam-me quando estava cansada; saltava de colo em colo com uns grandes olhos cor do oceano (aquele azul a fugir ao verde que encanta toda a gente) percorrerem toda a paisagem, guardando as melhores imagens na gaveta das recordações.
Acabamos por atingir uma bifurcação. Acabava o alcatrão e começavam os cubos de pedra, em duas estradas distintas. Sem que eu percebesse porquê, o meu grupo de caminhantes dividiu-se… Para que lado deveria eu ir?! Foi a primeira vez que me senti realmente assustada. Não tive voto na matéria, levaram-me para a esquerda. Às vezes questiono-me como teria sido se me tivessem levado para a direita… Só sei que sinto saudade dos caminhantes que não seguiram comigo. A estrada voltou a dividir-se, mas desta eu escolhi o caminho a seguir! Decisão prematura, inconsciente, infantil, inconsequente.
À medida que caminhávamos, os cubos tornavam-se cada vez mais irregulares. Caí várias vezes, já não havia ninguém para me segurar ao colo. Apercebi-me que tinha seguido o caminho mais “esburacado”, no entanto, já não dava para voltar atrás. Apenas tentei acelerar o passo… O resultado que obtive foram quedas mais frequentes e dolorosas. Tornei-me uma coleccionadora de cicatrizes; desenvolvi uma alergia á luz solar; perdi os olhos azul-mar e os cachos louros no cabelo. Estava demasiado pesada para continuar a andar sem auxílio… Abandonei a gaveta das recordações numa vala obscura, algures no caminho e segui em frente, muito mais leve.
Aproximava-se o fim dos cubos e o início da terra batida com “pedregulhos” a impedir a passagem. Voltei a ficar assustada mas ninguém percebeu. Prossegui, colocando o pavor num punho fechado, para que nem os olhos de um lince o vissem; nem mesmo um morcego lhe sentisse a temperatura alucinante. Comecei a correr. Mais um erro. Acabei até por perder o sorriso num embate violento contra uma rocha gigante. Disseram-me que com o tempo o recupero. Quem sabe? Tenho esperança.
O meu corpo tornou-se uma cicatriz ambulante. Era tudo demasiado difícil, decidi seguir sozinha por um caminho estreito e escuro, onde árvores de copas altas assombravam as minhas pisadas. Andei, andei, andei. Não sei por quantos quilómetros. Já falava comigo mesma para me manter acordada. Devido à escuridão, acabei por cair numa vala profunda. O tamanho é relativo, mas garanto que parece que até a própria Terra aqui caberia. Quem sabe? Eu já não sei se tenho esperança. Há quem diga que é fácil continuar e que daqui a poucos quilómetros tudo volta a ser como no início. Quem sabe? Eu não sei nada.
Escrevo à luz ténue de um pirilampo que aqui se instalou comigo. É um bom amigo, ouve-me. Confesso que o invejo por nunca ter sentido necessidade de me contar o que para lá vai com a sua “pirilampa”… Sabem o que acabei de lhe dizer?
'O que mais desejo é ser a minha sombra. Seguiria o mesmo caminho, mas sem o risco de me magoar.'"