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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Já ninguém sabe

Já ninguém sabe quem eu sou.
Sou turista na minha própria cidade. Esqueci o nome das ruas, os atalhos pelos becos sombrios e onde se fazem os melhores pastéis de nata. Perco-me nos caminhos e só chego ao destino por puro instinto. Talvez pelas memórias que tenho num sítio qualquer onde não consigo chegar voluntariamente.
Agosto traz a tristeza de voltar aos lugares que já não me pertencem. Traz a mágoa de ter que viver sozinha num lugar onde costumava ser feliz contigo. Talvez a cidade já não me abrigue como antes pelo simples facto de, aqui, teres sempre sido tu a possuir-me verdadeiramente. Não é a calçada gasta ou as fachadas escuras que fazem diferença, mas a falta da tua mão na minha. Não são as histórias alheias que as paredes guardam, mas as nossas apaixonadas conversas na soleira da porta. Aflige-me voltar para os nossos lençóis vazios e para estes rostos desconhecidos. Morro de saudades tuas.
Cansei-me de deambular pela cidade a ouvir línguas estranhas. Mesmo quando falam português, não falam a nossa língua. Ninguém me fala como tu falavas. Não voltei a querer agarrar a mão de ninguém na rua. 
Há coisas que serão sempre nossas; sempre tuas. Como o meu coração, a minha alma e a mais profunda essência de mim. Deixaste o resto para os outros: a carne e o pó. Quando morremos, morri para o mundo. Quando morri em ti, morri na minha vida. Já tu, és imortal dentro de mim.

1 comentário:

Profeta disse...

Falta o quadrado do "Muito Bom". Fantástico, Fantástico!