Já ninguém sabe
quem eu sou.
Sou turista na
minha própria cidade. Esqueci o nome das ruas, os atalhos pelos becos sombrios
e onde se fazem os melhores pastéis de nata. Perco-me nos caminhos e só chego
ao destino por puro instinto. Talvez pelas memórias que tenho num sítio
qualquer onde não consigo chegar voluntariamente.
Agosto traz a
tristeza de voltar aos lugares que já não me pertencem. Traz a mágoa de ter que
viver sozinha num lugar onde costumava ser feliz contigo. Talvez a cidade já
não me abrigue como antes pelo simples facto de, aqui, teres sempre sido tu a
possuir-me verdadeiramente. Não é a calçada gasta ou as fachadas escuras que
fazem diferença, mas a falta da tua mão na minha. Não são as histórias alheias
que as paredes guardam, mas as nossas apaixonadas conversas na soleira da
porta. Aflige-me voltar para os nossos lençóis vazios e para estes rostos
desconhecidos. Morro de saudades tuas.
Cansei-me de
deambular pela cidade a ouvir línguas estranhas. Mesmo quando falam português,
não falam a nossa língua. Ninguém me fala como tu falavas. Não voltei a querer
agarrar a mão de ninguém na rua.
Há coisas que serão sempre nossas; sempre
tuas. Como o meu coração, a minha alma e a mais profunda essência de mim.
Deixaste o resto para os outros: a carne e o pó. Quando morremos, morri para
o mundo. Quando morri em ti, morri na minha vida. Já tu, és imortal dentro de
mim.
1 comentário:
Falta o quadrado do "Muito Bom". Fantástico, Fantástico!
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