Pragas, sangue, carne. Fogos nas matas, labaredas do tamanho
de prédios. Edifícios destruídos, ruínas pelas ruas. Aos gritos sucedeu o
silêncio morto, depois da vaga do crepitar do lume ter embalado os ruídos do
caos. Embalaram, balançaram, caíram num sopor perpétuo. Porque as pessoas já
não amam. Nem tão pouco comunicam. Não se abraçam nem se sentam à mesma mesa
para jantar. Não sabem sequer que existem, metabolizam a consciência e o
pensamento da mesma forma que respiram, produzem gâmetas e comem. Porque tem
que ser. Porque estão formatados para isso, mesmo sem ninguém lhes ter ensinado
nada. Deixaram de enterrar os corpos, deixam-nos espalhados em valas cobertas
de abutres. Abutres que se alimentam das vísceras do que já não vive, do que
nem tempo teve para dizer adeus.
Há muito que o meu mundo caminha lentamente para o torpor
inóspito da falta de sentido de viver. Fosse eu antes como tudo o que nem sabe
que existe. Mas verdade seja dita, o meu mundo ruiu apenas quando percebi que não
éramos capazes de voltar; quando perdi a esperança em nós. Até lá a dor tinha
uma razão de ser: sentir tudo de uma só vez para ser feliz. Contigo. Talvez o
problema seja meu, como tu dizes. Talvez eu não saiba ser feliz, talvez destrua
tudo de bom à minha volta. Pudesse eu controlar o buraco vazio que deixaste na minha
vida, pudesse eu sarar todos os buracos que já me fizeram no coração e eu não
seria assim. Triste, vazia, espinhosa, enfurecida. Mas agora o meu mundo são
pragas, sangue e carne. Não tenho porque sarar as feridas, não tenho porque
lutar, não preciso sequer de força porque tudo está perdido. Eu própria me
perdi quando te perdi.
O meu amor por ti é mais verdadeiro que o sangue que me
corre nas veias. A saudade é insuportável. Prometi que não voltava a falar-te e
é por isso que te escrevo. E escrever-te-ei enquanto as minhas mãos forem
capazes de traduzir o que sinto por ti.
Mesmo quando for eu o corpo na vala, a servir de alimento aos
abutres, vou continuar a amar-te com a intensidade do nosso primeiro beijo. Nem
que arda com a floresta, nem que desabe com os edifícios ou que todo o mundo já
não ame, eu nunca saberei parar de te amar. Porque o meu amor por ti tem que
ser.