
Também estou sem paciência para baptizar a fotografia.
Propositadamente, perdi um pouco a noção do tempo. Sei que está escuro, lá fora, pelo simples facto da cortina ter insistido em não se deixar fechar. Malditas modernices, que me impedem de me fechar nestas quatro paredes vermelhas da sala de estar. Ao fundo, na estrada de alcatrão, consigo ver um outdoor do Jumbo. Sinto-me frustrada, porque tenho-me visto forçada a aguentar a irritante música do Pingo Doce, dado não saber que por aqui há um Jumbo.
Os olhos ardem-me, outra vez… Talvez seja pela cor das paredes. Ou talvez se deva à minha preguiça de procurar os óculos, no caos a que normalmente chamo de quarto, ou ao cansaço pela falta de sono… Não sei, nem é realmente relevante. Relevante é este estado de espírito perigoso. Vejo o meu reflexo nítido na janela, como um misto inflamável, esperando uma faísca para explodir e criar o caos. O passado não é só composto por alicerces que nos permitem manter de pé… Inclui, também, fantasmas que nos acompanham o reflexo e nos perseguem a sombra, até nos fazerem cair.
Não sei como aqui cheguei, só sei que preciso desesperadamente do meu Olimpo. Temo seguir o único caminho que me garante atingi-lo… Porque o ser é fraco e frágil, por dentro. Mesmo quando uma fortaleza nos rodeia a alma, somos só mais uma insignificante parte do Universo, com sonhos e paixões, medos e desilusões. Sendo objectiva, tudo o que quero dizer é que tenho saudades daquela apatia.
P.S.: Obrigada Jeff Buckley, pelo simples facto de teres existido e deixares um legado como o Grace.

