Sou fracção dos enfurecidos. Enfureço-me com a vida e comigo
porque a vivo – ou não a vivo. Enfurecem-me os tenho que, os devias, os tem
cuidado, os pensa bem.
Enfureço-me quando me ligam, quando me interrompem o café,
quando me acordam e quando não me deixam dormir. Enfureço-me se me prendem e
quando me libertam. Enfurece-me o querer(-te), porque te tive e porque não te
tenho. Enfurece-me a tua pele morena, o cabelo longo e escuro, a imagem do sol
a mudar-te a cor dos olhos. Enfurece-me a forma ríspida com que te diriges às
pessoas e a capacidade inata com que ganhas discussões.
Enfurece-me a imagem das tuas mãos, como se ainda me
percorressem o corpo. Enfureço-me porque partiste, porque te deixei ir. Sem
pedir para ficares, sem te dizer que isto é amor.
Mértola, 13 de Março de 2016