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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Eco de fúria

Sou fracção dos enfurecidos. Enfureço-me com a vida e comigo porque a vivo – ou não a vivo. Enfurecem-me os tenho que, os devias, os tem cuidado, os pensa bem.
Enfureço-me quando me ligam, quando me interrompem o café, quando me acordam e quando não me deixam dormir. Enfureço-me se me prendem e quando me libertam. Enfurece-me o querer(-te), porque te tive e porque não te tenho. Enfurece-me a tua pele morena, o cabelo longo e escuro, a imagem do sol a mudar-te a cor dos olhos. Enfurece-me a forma ríspida com que te diriges às pessoas e a capacidade inata com que ganhas discussões.

Enfurece-me a imagem das tuas mãos, como se ainda me percorressem o corpo. Enfureço-me porque partiste, porque te deixei ir. Sem pedir para ficares, sem te dizer que isto é amor.

Mértola, 13 de Março de 2016