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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Talvez não faça diferença

E se quiséssemos ser felizes agora? Se não aguentássemos mais… Talvez não fizesse diferença nenhuma.
Quando voltei os olhos na sua direcção, não fui capaz de ver para além da tez pálida, alva como quem acabou de acordar de um desmaio. Inspirei e sorri. Pouco depois, consegui ver as maças do rosto salientes, os olhos enterrados e os ossos cravados na roupa folgada. A minha pele arrepiou. Expirei e sorri.
Nunca tinha visto ninguém a morrer – não com a consciência da morte, pelo menos. É como uma árvore que teve o azar de germinar num penhasco. É como ver a gravidade a combater a força das raízes, muito lentamente, esticando os tecidos até a árvore estar presa somente por um fio. É ficar ali a ver o fio num olhar impotente, à espera que a força ceda.
Um dia tive uma casa, tenha sido há cinco ou há vinte anos. De qualquer das formas, a morte deixou-me sem tecto. A morte tem um cheiro fétido. A morte rouba-nos tudo. Mesmo quando ainda ninguém morreu.
Fujamos dela. Antes que doa. Ou será que já dói? Talvez não faça diferença nenhuma.
Sei que encho a cabeça com tudo o que me faz não pensar nele. Talvez pela saudade que tenho de uma mão forte na minha cabeça. Talvez pelo medo que tenho de deixar de ter uma mão fraca para segurar. Sei que quero continuar a esquecer a postura débil e a voz fraca. Sei que não quero mais ver o enjoo de não poder viver como os outros vivem. Mas quero cá estar quando tudo acabar e a gravidade vencer, para relembrar - a mim e a eles - os assobios, a música e os braços fortes em meu redor. Não me quero esquecer disso. Talvez por isso fuja de tudo isto.
Se ao menos o meu coração pudesse bater. Se pudesse embrulhar tudo o que tenho e dar a alguém. Se ao menos pudesse sentir alguma coisa. Se alguém sentisse por mim…
E se eu te quiser agora? Se não for capaz de impedir que te ergas aos meus olhos… Talvez não faça diferença, se não me quiseres de volta.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Como se


Não, não tenho nada para te dizer. Nem uma palavra que seja. Conheces aqueles rios que secam no Verão? O meu Verão tem mais de vinte anos. E ainda assim está um frio de morte. Nunca te tocarei com estas mãos geladas.
Que venha a morte. E os corpos que estariam à tona da água, se o rio não tivesse secado. Que se vejam as carcaças devoradas pela secura e os abutres a pairar.
Que se instale o caos definitivamente, estou cansada de fazer de conta que a cor que dá vida às folhas no Outono é real. Como se na realidade não estivesse já tudo tão morto quanto as minhas palavras. Como se não estivesse tudo a definhar. Como se mais um mês ou dois mudasse alguma coisa. Como se fosse possível ninguém morrer.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Pulsing mass

I used to have that thing they are all talking about. That pulsing mass inside my body. That strange entity who used to race at the sight of you.
I feel dead now. Like there’s no blood flow. It is cold and dark and I am twisted. I do miss a warm body at night. My hands are always cold. My skin is pale and there’s never a blush on my cheeks.
However, who knows if there’s a brand new heart waiting for me around the corner.

Now, I do not have anything else to say. My words are as empty as my soul.

(Um mês depois de ter aulas em inglês todos os dias.)

sábado, 16 de novembro de 2013

Um dia, alguém me vai partir o coração

Um dia, alguém me vai partir o coração. Não que não o tenham partido antes – ou eu não seria o que sou –, contudo será diferente. É uma questão de lógica, como partir um jarro, colá-lo com super-cola e voltar a parti-lo. Chegará a um ponto em que o jarro já não é o mesmo, ou já nem um jarro é de todo.
Na verdade, só há uma coisa pela qual anseio realmente: ser livre. Ser livre para sentir por mim e pela minha vida e não pela dos outros, ou pela forma como a vivem.
Apaixonar-me. Desapaixonar-me. Se optar por um discurso prático, posso dizer que me apaixono frequentemente. Por uma música, um poema, um livro, um nascer do sol, uma frase, um amigo, um total desconhecido… Porém, não é isso que eu desejo. O que eu desejo realmente é reduzir o espaço vazio que nunca serei capaz de preencher. E com isso arranjar espaço dentro de mim, onde caibam sentimentos a sério.

Aí, sim, alguém me vai partir o coração. E espero que o façam. Que me partam intensamente. Porque eu mereço. Não só pelos corações que parti, mas porque mereço uma nova oportunidade. Mereço ser colada numa nova forma. Ter um coração novo. Renascer. Sentir. Viver.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Um sonho dentro de um sonho

Sonhei contigo
Um sonho dentro de um sonho
Deitámo-nos devagar
Entrelaçamos as pernas e os braços
Num abraço de corpo nu
Inspirei o teu calor
E cerramos os olhos
Divagamos para um lugar diferente
Uma realidade onde não existia passado
Onde as pessoas não morriam
E o presente não doía
Havia sorrisos a correr pela casa
Copos de café pela manhã
E o sol a entrar pela janela
Tu estavas ao meu lado
Incondicionalmente
E eu era mais do que um abismo.

Envelhecemos de braço dado
Um sonho dentro de um sonho
Porque uma vida só não basta para nós
Porque nesta vida eu sou um vórtice de tormenta
Um vulcão que engole a terra e explode em ira
Uma catástrofe.

Deiteimo-nos
Devagar
Entrelacemos os braços e as pernas
Deixemos os cigarros apagar no cinzeiro.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Há já algum tempo desde que, dia após dia, acordo afogada em suores gelados, com a respiração quebrada e o coração a colapsar.

Queria dizer adeus, um adeus de verdade, e nunca mais pensar em ti. Não, não vou nunca deixar de pensar em ti. Queria que pelo menos o chão parasse de tremer, quando fecho os olhos e és tu quem eu vejo.

Há tanto para além de ti. Para além da recordação do formato dos teus dedos e da textura do teu colo... Há dor em todo o lado e, ainda assim, o meu maior mal és tu.

Talvez o meu maior mal seja distrair o coração com dores inócuas, por não ser capaz de sofrer de verdade.

domingo, 15 de setembro de 2013

Tempo de sangue

Há sangue por todo o lado.
Uma tempestade de coágulos que explodiu no chão.
Não há água neste mundo que lave as manchas.
Que dissolva o sangue.
Apesar dos gritos e da tormenta, já não há guerra.
Nem tão pouco o sangue clamou por tréguas.
À Morte!
É uma questão de tempo.
Uma questão de tempo.

O sangue brilha da rua, na noite densa.
Sinto um abraço frio que me rasga e asfixia.
O sangue morreu-me nas veias.
Tão vivo outrora, quando me abriste.
Tão quente, a corrente que em tempos ditou tudo o que fui.
Haverá paz em terras geladas, onde o sangue não corre em ninguém.
A vida…
Congelou dentro do tempo.
Perdeu-se dentro do tempo.

Oh Tempo em que ainda há sangue, abranda.
Ao tempo que ainda falta, um bem-haja.
Ao tempo que ainda temos, um obrigada.