E se quiséssemos ser
felizes agora? Se não aguentássemos mais… Talvez não fizesse diferença nenhuma.
Quando voltei os
olhos na sua direcção, não fui capaz de ver para além da tez pálida, alva como
quem acabou de acordar de um desmaio. Inspirei e sorri. Pouco depois, consegui
ver as maças do rosto salientes, os olhos enterrados e os ossos cravados na
roupa folgada. A minha pele arrepiou. Expirei e sorri.
Nunca tinha visto
ninguém a morrer – não com a consciência da morte, pelo menos. É como uma
árvore que teve o azar de germinar num penhasco. É como ver a gravidade a
combater a força das raízes, muito lentamente, esticando os tecidos até a árvore estar presa somente por um fio. É ficar ali a ver o fio num olhar impotente, à espera que a força ceda.
Um dia tive uma
casa, tenha sido há cinco ou há vinte anos. De qualquer das formas, a morte
deixou-me sem tecto. A morte tem um cheiro fétido. A morte rouba-nos tudo. Mesmo
quando ainda ninguém morreu.
Fujamos dela.
Antes que doa. Ou será que já dói? Talvez não faça diferença nenhuma.
Sei que encho a
cabeça com tudo o que me faz não pensar nele. Talvez pela saudade que tenho de
uma mão forte na minha cabeça. Talvez pelo medo que tenho de deixar de ter uma
mão fraca para segurar. Sei que quero continuar a esquecer a postura débil e a
voz fraca. Sei que não quero mais ver o enjoo de não poder viver como os outros
vivem. Mas quero cá estar quando tudo acabar e a gravidade vencer, para relembrar - a mim e a eles - os assobios, a música e os braços fortes em meu redor. Não me quero
esquecer disso. Talvez por isso fuja de tudo isto.
Se ao menos o meu
coração pudesse bater. Se pudesse embrulhar tudo o que tenho e dar a alguém. Se
ao menos pudesse sentir alguma coisa. Se alguém sentisse por mim…
E se eu te quiser
agora? Se não for capaz de impedir que te ergas aos meus olhos… Talvez não faça
diferença, se não me quiseres de volta.