Quando te tento transformar em palavras, sou incapaz de conjugar os verbos no pretérito perfeito. Já tentei o pretérito imperfeito,
pela sua continuidade, mas ainda não faz sentido conjugar-te em qualquer tipo
de passado.
Estou habituada a que não existas no presente. Ainda não
tinha pensado em ti hoje e são quase sete da tarde. Não tenho qualquer pudor em
dizer que fomos, ou não fomos, que fizemos ou não fizemos, onde estivemos. É
uma questão de semântica, na oralidade, mas por escrito as palavras ficam
sérias. É por isso que não há casamentos nem contratos em que não se escreva e
assine por baixo.
Neste presente em que me encontro, estarias a acender um
cigarro, curto, usando as duas mãos, para proteger a chama da brisa que na
verdade nem sequer existe. Terias pedido um café pingado e estarias de costas
direitas e perna cruzada. Se te obrigassem a pensar – e quando digo pensar,
refiro-me a uma efectiva reflexão em algo que te mexe por dentro -, morderias o
lábio inferior e pressionarias as têmporas com as pontas dos dedos que usas
para segurar o cigarro. Na tua cómoda distracção, terias sorrido sem querer
inúmeras vezes e tentado encontrar numerosos motivos para implicar comigo. Se
tivéssemos algum tipo de discussão, nunca desistirias da tua opinião e eu nunca
cederia à exaustão de argumentar contigo, tal é a excelência da tua postura quando
defendes ideais. Talvez goste tanto de te ver falar como de te ouvir.
Este momentâneo presente hipotético em que te vi e ouvi
numa mesa de café, valeu por todas as horas deste dia em que não me lembrei de
ti. Neste presente onde não existes de verdade, não te escrevo,
conjugo-te no condicional. Mas ao futuro que não me deixa largar-te, assino por
baixo.