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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Tu, em tempos verbais

Quando te tento transformar em palavras, sou incapaz de conjugar os verbos no pretérito perfeito. Já tentei o pretérito imperfeito, pela sua continuidade, mas ainda não faz sentido conjugar-te em qualquer tipo de passado.
Estou habituada a que não existas no presente. Ainda não tinha pensado em ti hoje e são quase sete da tarde. Não tenho qualquer pudor em dizer que fomos, ou não fomos, que fizemos ou não fizemos, onde estivemos. É uma questão de semântica, na oralidade, mas por escrito as palavras ficam sérias. É por isso que não há casamentos nem contratos em que não se escreva e assine por baixo.
Neste presente em que me encontro, estarias a acender um cigarro, curto, usando as duas mãos, para proteger a chama da brisa que na verdade nem sequer existe. Terias pedido um café pingado e estarias de costas direitas e perna cruzada. Se te obrigassem a pensar – e quando digo pensar, refiro-me a uma efectiva reflexão em algo que te mexe por dentro -, morderias o lábio inferior e pressionarias as têmporas com as pontas dos dedos que usas para segurar o cigarro. Na tua cómoda distracção, terias sorrido sem querer inúmeras vezes e tentado encontrar numerosos motivos para implicar comigo. Se tivéssemos algum tipo de discussão, nunca desistirias da tua opinião e eu nunca cederia à exaustão de argumentar contigo, tal é a excelência da tua postura quando defendes ideais. Talvez goste tanto de te ver falar como de te ouvir.
Este momentâneo presente hipotético em que te vi e ouvi numa mesa de café, valeu por todas as horas deste dia em que não me lembrei de ti. Neste presente onde não existes de verdade, não te escrevo, conjugo-te no condicional. Mas ao futuro que não me deixa largar-te, assino por baixo.

Corpos, sangue e carne

Nesses olhos de esgrima
Trespassa-me a carne
Faz-me sangrar por dentro
Verte o espólio deste corpo
Na vertigem em que te olho
Mas nunca te toco, não.

Dos curtos copos que bebo
No travo ácido que devoro
Pela imagem ríspida da carne
Pela inércia dos corpos
Nesta espiral devota de ti
Sem nunca te ver, não.

No espaço em que não estás
O leve som em que te encaixas
Se com garra te devorar assim
Não haverá mais pedaço de ti
Onde é que começa o termo
Na realidade de não seres, não.

domingo, 6 de novembro de 2016

O que és

Se me tocas e eu não te toco
Se me tocas e eu não te sinto
É a tua pele que arde em brasa
É o teu coração que me queima
É o teu corpo que me esmaga

Se me olhas e eu não te olho
Se me olhas e eu não te vejo
É o vinho que já não te apaga
É o sono que já não te esquece
É a cama que já não me aquece

É o fim do dia que te leva
São os ossos cravados na carne
São as silhuetas desenhadas nos lençóis
É a órbita no meu vício de não ser
De não estar
De não sentir
É o respirar para o sobreviver
São as estradas fechadas à vontade
São as voltas inóspitas no chão
É a órbita no teu vício de ser
De estar
De sentir

É o tempo até ao próximo fim do dia.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Um copo

O copo vai meio cheio,
É hora de ponta na cidade.
As ruas correm meias cheias,
Neste lugar onde quase não vai gente.

Se as silvas travassem as estradas
Se os caminhos fundissem no chão
Se os astros abafassem a terra
E os peixes migrassem no Universo?

Se os rios secassem no Inverno
Se a luz do sol cessasse o dia
Se o mar invadisse os portos
E o caos devorasse a carne?

Se a Natureza me engolisse
Se me levasse alada num vendaval
Se me envolvesse em lama
E me cobrisse de espinhos?

O copo vai meio vazio
É hora de recolha na cidade
As ruas não correm pelo vazio
Neste lugar onde desaparece gente.

Se tudo apartasse na desordem
E tu não me contemplasses?

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Eco de fúria

Sou fracção dos enfurecidos. Enfureço-me com a vida e comigo porque a vivo – ou não a vivo. Enfurecem-me os tenho que, os devias, os tem cuidado, os pensa bem.
Enfureço-me quando me ligam, quando me interrompem o café, quando me acordam e quando não me deixam dormir. Enfureço-me se me prendem e quando me libertam. Enfurece-me o querer(-te), porque te tive e porque não te tenho. Enfurece-me a tua pele morena, o cabelo longo e escuro, a imagem do sol a mudar-te a cor dos olhos. Enfurece-me a forma ríspida com que te diriges às pessoas e a capacidade inata com que ganhas discussões.

Enfurece-me a imagem das tuas mãos, como se ainda me percorressem o corpo. Enfureço-me porque partiste, porque te deixei ir. Sem pedir para ficares, sem te dizer que isto é amor.

Mértola, 13 de Março de 2016

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

The thing you make me do

It's been awhile now. I promised myself I'd give up my soul if I ever felt the urge to write to you, to write about you.
I'm writing right now and I regret nothing. I realized you made me lose my soul a long time ago. Maybe you just stole it, I cannot be sure.
You made me forget what it means to feel safe. I can no longer sleep without dreaming about the ones who stopped breathing. You made me forget what it means to feel sane. You made me forget what it means to feel.
You make me live with no space for hope. You make me feel petrified, deserted and mad. I'm always scared. I’m always afraid of losing people. I could not bear to lose anyone else, as I lost so many, as I lost you. I still remember the way it felt when I thought about living without you. And now that I do, I'm still so frightened that I jump from a place to another, so I never have the time to grow roots.
You made me this lonely.  You make me hurt people. It's like I'm in some kind of black-market, the heart's business. I steal them, I use them for a while and I leave them for the wild animals to tear apart. You made me this cold. You made me this heartless.
After all this time, I don't know if I will always love you or if I will never love again. I've been wandering around piles of warm bodies. They are not you. No matter how many right people I know, I always go back to the black cave you made me build.
Does anyone care where I've been? Do you care about the places I go, the senseless beds I sleep in, the tasteless lips I kiss, the empty eyes I stare at? Do you care about me at all? If you did, you'd just save me or free me.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Um ano

Hoje não é um bom dia para o silêncio. Os sons fecham-se só para eu ouvir a sua voz; para me lembrar que a esqueci. Só passou um ano? Já passou um ano? Um ano de saudade, um ano de silêncio. Um ano depois do que parece que aconteceu ontem.
Começo agora a lembrar-me de nós. Do primeiro acorde que ele me ensinou; das tardes no sofá, dos risos e das cantigas; das idas para a escola; das fugidas à socapa; de comparar o tamanho das nossas mãos; de querer crescer até à sua altura; de lhe chamar moi; do bigode farfalhudo e a covinha na bochecha a sorrir para mim.
Lembro-me do silêncio sentenciador que partilhávamos, quando toda a família se juntava à mesa; de lutar pela cadeira do seu lado direito; de querer oferecer-lhe toda a vida que havia em mim.
Lembro-me dos nossos segredos e nunca os partilharei.
Lembro-me de tudo e ainda assim esqueci a sua voz.
Esquecesse eu a morte e a forma de morrer; o cheiro e a meia-luz da enfermidade; o ápice de lucidez em que dissemos adeus; a última vez que demos as mãos; a cabeça sem cabelo e os ossos cravados na pele; as conversas sem sentido; o esquecer-se de mim.
Esquecesse eu a ausência no último suspiro; os homens que o levaram suspenso; o fato de um verde morto; o perfume das flores e a privação de ar; o chão repleto de pés e pessoas, frenéticos e incansáveis; a sua testa nua e gélida nos meus lábios; o lacrar das tábuas e o cair da terra.
Esquecesse eu tudo para relembrar a sua voz.

sábado, 5 de setembro de 2015

Dicotomias de um não

É-me fácil dizer não.
Não me lembro; Não me apetece;
Não quero; Não vou;
Não sei.
Não sou.
Entristece-me ouvir não. Enfurece-me, às vezes.
Não me lembro de ti; Não me apetece ver-te;
Não te quero; Não vou contigo;
Não sei quem és.
Não sou tua.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Um banco num jardim

As cidades destes tempos são feitas de jardins. Lembraram-se agora que as árvores e os insectos são mais importantes que leões e tigres enjaulados. O problema desses jardins é o excesso de simetria. A natureza não tem espaço para crescer como lhe apetece. Achamos que a podemos ensinar a ser, tal e qual fazemos uns com os outros.
O rio vai continuar a correr para o mar e, contra isso, nada podemos fazer. Ainda assim, há às vezes a ilusão de que desliza para a montanha, torna-se difícil orientar os sentidos e correr para o lugar certo. Apesar de tudo, nestes jardins, as pessoas movem-se devagar. Os passos são lentos, como se as pernas discutissem constantemente para que lado é o Norte. Deslocam-se num compasso muito especial, quase como se caminhassem ao som de um Nocturno de Chopin. Os braços vão balançando alternadamente em redor dos corpos, os cabelos esvoaçam e por vezes encobrem os rostos. Algumas destas pessoas até sorriem e dão as mãos.
Por mais que a caminhada seja lenta, há bancos em todo o lado. Há velhotes sentados, com ambas as mãos apoiadas em bengalas de madeira, como se mesmo em repouso precisassem de ajuda para suportar o peso e a idade. Conversam e gesticulam, soltam gargalhadas sonoras que se fundem com o ruído dos chafarizes. Há casais que dividem metade de um só banco; há amigos que se estendem na relva; há passeios com cães; há atletas; há os que mascaram a solidão no ecrã de um smartphone; há os que passam e os que, como eu, vêm estes jardins como um sítio onde é permitido existir sozinho.
As pessoas de agora têm mais fobia de serem vistas sozinhas do que da própria solidão. O que seria de nós se o resto do mundo percebesse que estamos sozinhos? Valem mais as conversas vazias de uma mesa de café do que os diálogos inóspitos que só acontecem dentro da nossa cabeça.
As pessoas vão aos jardins para rir e para chorar, para abraçar e discutir, para pensar e parar de pensar. Talvez o intuito dos jardins não seja manter a natureza no meio de nós. Talvez eu mesma me sirva de um falso bucolismo para pôr os pés no chão e interromper uma deriva na estratosfera, sem saber se me deixe ser engolida pela Terra ou me perca no espaço.
Sento-me em bancos de jardim demasiadas vezes. Acho que o faço na esperança de um dia me levantar e deixar a saudade, a raiva e o amor sentados lado a lado. Por vezes, sento-me e sinto-me um ser humano e levanto-me como um corpo. Mas eles não ficam sentados, antes correm atrás de mim e não se deixam enganar pela corrente. Assim que enfio a chave na fechadura da porta de casa, já eles me possuíram outra vez. Espero um dia deixar de precisar de jardins. Porque, para mim, os jardins foram feitos para “sentir tudo de todas as maneiras”.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Soubesses tu

Já reparaste que ainda respiramos? Ainda vivemos. Ainda somos.
Posso gritar contigo e tu podes gritar comigo. Podemos agarrar-nos de ódio e abraçar-nos de amor. Podemos ser felizes e tristes em conjunto, como se fôssemos só um corpo. Ainda podemos amar com palavras e conversar com o corpo. Podemos discordar e nunca chegar a um consenso, podemos pegar-nos ao colo e empurrar-nos contra a parede. Podemos achar as pessoas ridículas e ser o centro do nosso mundo. Enquanto respirarmos o mesmo ar, ainda podemos ser felizes.
Não somos como os que já não respiram, que já não vivem nem são nada para além de uma recordação, para além da carne gélida e dos ossos cobertos de pó. 
Soubesses tu o quanto eu dava para lhes poder gritar, para os ouvir gritar de volta, para discordar, para discutir a Origem das Espécies e a Guerra do Ultramar... Já nem pedia que me pegassem ao colo, nem que me abraçassem ou me fizessem sentir segura. Contentava-me com os gritos e a normalidade de existirem. Queria apenas poder estar, poder sentir, poder alguma coisa.
Poder, como posso contigo, porque ainda estás quente e ainda consigo ouvir o teu coração a bater. Poder deixar de ouvir a voz que me diz que vai sempre doer, até tudo deixar de valer a pena.
Soubesses tu o que é para mim falar de amor - a ti e a eles - e ter sempre o mesmo silêncio de volta... Dar-me-ias os gritos, pelo menos. Soubesses tu o quanto é para mim poder ouvir o teu coração a bater!

domingo, 17 de maio de 2015

As pessoas

As pessoas são monstros. São canibais e devoram-nos vivos.
As pessoas já não têm garra, já não lutam; As pessoas já só têm garras, já só magoam.
As pessoas morrem, de corpo ou de alma. E nós ficamos aqui, incessantemente à procura delas, desesperados, sozinhos, às cegas, como se tivéssemos sido enterrados nos escombros de uma cidade, depois de um terramoto.
Por baixo da pele somos todos hediondos e detestáveis. Uns mais do que outros. Animalescos e sem a inocência da irracionalidade. As pessoas são pérfidas, repulsivas, perversas.
Os leões e os tigres atacam por instinto, os cães mordem para se protegerem; os lobos matam por terem fome e as raposas vivem entre nós por não saberem mais. As pessoas magoam por saberem demais, por quererem, porque existem e porque são más. As pessoas magoam por morrerem. As pessoas magoam.
De nada serve o amor. Já nem se sente, já nem se vive, já nem existe. Só o ódio, a mágoa, a ira, o rancor… E o cansaço.
E o coração apenas serve para bombear o rasto de sangue que conduz à demência. Cada gota de insensatez, no atrasado caminho do tentar mais uma vez. Tentar até não haver nada. Até não haver sangue, nem raiva, nem corpos, nem almas. Tentar até sermos um desses gatos vadios que foge antes sequer de saber se pode ou não confiar.

terça-feira, 12 de maio de 2015

"O amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura"

Um dia, esta doença ainda me mata. Tem-me consumido, mas há anos que me mantém viva. É o que inspiro e expiro, o que como, o que durmo, o que dói e o que rejubila. Eram os meus sonhos e os meus pesadelos, as minhas gargalhadas e as minhas lágrimas, a razão por que vivia e porque ainda não morri. Foi o sangue que me correu quente nas veias, o abraço apertado que senti com os pulmões, a força bruta de uma explosão que cá dentro nunca cessou. É agora um parasita que só não mata o hospedeiro por não querer morrer também.
O amor é para sempre. O amor de verdade. O amor único. O amor que morde. O amor que parte. O amor que sangra. O amor que dói. O amor que consome. A doença que mata. Como se a morte e o amor estivessem à distância de um braço e apenas um me estendesse a mão.
É a enfermidade de cair no vazio, de não saber sentir mais nada, de não haver outra senão aquela, aquela que já não ama, que já não quer, que já me deixa morrer.
O sono que nunca chega. A fome que nunca vem. Podia até alimentar-me de bisnagas insípidas. Só para morrer mais lentamente e ter tempo de dizer adeus - como outros não me disseram a mim. Aos outros, aos que ainda amam e que ainda querem.
O amor é a doença que me mata.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O meu amor tem que ser

Pragas, sangue, carne. Fogos nas matas, labaredas do tamanho de prédios. Edifícios destruídos, ruínas pelas ruas. Aos gritos sucedeu o silêncio morto, depois da vaga do crepitar do lume ter embalado os ruídos do caos. Embalaram, balançaram, caíram num sopor perpétuo. Porque as pessoas já não amam. Nem tão pouco comunicam. Não se abraçam nem se sentam à mesma mesa para jantar. Não sabem sequer que existem, metabolizam a consciência e o pensamento da mesma forma que respiram, produzem gâmetas e comem. Porque tem que ser. Porque estão formatados para isso, mesmo sem ninguém lhes ter ensinado nada. Deixaram de enterrar os corpos, deixam-nos espalhados em valas cobertas de abutres. Abutres que se alimentam das vísceras do que já não vive, do que nem tempo teve para dizer adeus.
Há muito que o meu mundo caminha lentamente para o torpor inóspito da falta de sentido de viver. Fosse eu antes como tudo o que nem sabe que existe. Mas verdade seja dita, o meu mundo ruiu apenas quando percebi que não éramos capazes de voltar; quando perdi a esperança em nós. Até lá a dor tinha uma razão de ser: sentir tudo de uma só vez para ser feliz. Contigo. Talvez o problema seja meu, como tu dizes. Talvez eu não saiba ser feliz, talvez destrua tudo de bom à minha volta. Pudesse eu controlar o buraco vazio que deixaste na minha vida, pudesse eu sarar todos os buracos que já me fizeram no coração e eu não seria assim. Triste, vazia, espinhosa, enfurecida. Mas agora o meu mundo são pragas, sangue e carne. Não tenho porque sarar as feridas, não tenho porque lutar, não preciso sequer de força porque tudo está perdido. Eu própria me perdi quando te perdi.
O meu amor por ti é mais verdadeiro que o sangue que me corre nas veias. A saudade é insuportável. Prometi que não voltava a falar-te e é por isso que te escrevo. E escrever-te-ei enquanto as minhas mãos forem capazes de traduzir o que sinto por ti.
Mesmo quando for eu o corpo na vala, a servir de alimento aos abutres, vou continuar a amar-te com a intensidade do nosso primeiro beijo. Nem que arda com a floresta, nem que desabe com os edifícios ou que todo o mundo já não ame, eu nunca saberei parar de te amar. Porque o meu amor por ti tem que ser.

domingo, 1 de março de 2015

Morro aqui, de amor por ti

Morro aqui, de amor por ti.
Meu amor, minha alma a quem pertenço.
És o labirinto onde me encontrei, o trilho que seguiria de olhos vendados e mãos atadas. És o fio que me liga ao mundo, a voz que sempre me segue, as muralhas que me separam do caos.
És a minha carne e o sangue que a alimenta. És a gravidade que me mantém aqui. O sol que me aquece. A lua que vejo pela janela.
És tudo o que bate no meu peito. És a vida que eu poderia ter.
És o lugar vazio da cama, és a ausência no chuveiro, o robe pendurado na porta e a gargalhada que poderia ter dado.
És a felicidade que poderia ter vivido.
És a encruzilhada onde me perdi.
Sou o abismo onde me deixaste.
Meu amor, que eu parti, que me partiu.

Saberás, um dia, que morri por ti. Que morri aqui, de amor por ti.

domingo, 7 de dezembro de 2014

"Xau, tio, eu volto p'ra semana"

Foste e deixaste o silêncio. No ar, no balcão da cozinha, no gume da faca com que me ensinaste a picar cebola, nas tralhas perdidas no fundo das gavetas, a ladear os móveis e as pinturas e a refletir-se nas paredes.
Deixaste o vazio. A preencher o teu lugar à mesa, o banco do condutor, os sapatos debaixo da cama e as camisas no armário, as alianças de casamento e bodas de prata e um pedaço do meu coração.
Deixaste espaço a mais. Como se fosse suposto abrir um novo mar, onde não chove senão lágrimas. Como se nós as tivéssemos que chorar todas antes de a tristeza acabar e não houvesse forma da maré por fim encher.
O relógio da cabeceira está parado. O tempo ficou assim, diferente, passa de uma forma estranha. Às vezes não sei se passaram dias ou horas, se sonhei enquanto dormia ou se estava acordada, se já foste mesmo ou se ainda aqui estás.
É então que se ergue a imagem dos estranhos homens de gravata preta dentro da nossa casa, os que te levaram suspenso em quatro tábuas. Os vizinhos no hall de entrada, a ver-te sair. É então que sinto a tua testa gélida contra os meus lábios e me lembro que nunca voltarás.

sábado, 8 de novembro de 2014

O Primeiro

Eu gosto de ti.
Ouviste-me?
Eu gosto de ti.

Eu estou aqui.
Sentiste-me?
Eu estou aqui.

Eu vou ficar aqui.
Esperas?
Eu vou ficar aqui.

E, um dia, vou poder dizer que te amo.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Já ninguém sabe

Já ninguém sabe quem eu sou.
Sou turista na minha própria cidade. Esqueci o nome das ruas, os atalhos pelos becos sombrios e onde se fazem os melhores pastéis de nata. Perco-me nos caminhos e só chego ao destino por puro instinto. Talvez pelas memórias que tenho num sítio qualquer onde não consigo chegar voluntariamente.
Agosto traz a tristeza de voltar aos lugares que já não me pertencem. Traz a mágoa de ter que viver sozinha num lugar onde costumava ser feliz contigo. Talvez a cidade já não me abrigue como antes pelo simples facto de, aqui, teres sempre sido tu a possuir-me verdadeiramente. Não é a calçada gasta ou as fachadas escuras que fazem diferença, mas a falta da tua mão na minha. Não são as histórias alheias que as paredes guardam, mas as nossas apaixonadas conversas na soleira da porta. Aflige-me voltar para os nossos lençóis vazios e para estes rostos desconhecidos. Morro de saudades tuas.
Cansei-me de deambular pela cidade a ouvir línguas estranhas. Mesmo quando falam português, não falam a nossa língua. Ninguém me fala como tu falavas. Não voltei a querer agarrar a mão de ninguém na rua. 
Há coisas que serão sempre nossas; sempre tuas. Como o meu coração, a minha alma e a mais profunda essência de mim. Deixaste o resto para os outros: a carne e o pó. Quando morremos, morri para o mundo. Quando morri em ti, morri na minha vida. Já tu, és imortal dentro de mim.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Demónios

O meu cérebro tremia no mesmo comprimento de onda que o som daquele lugar. Aquele lugar inóspito. Os pés das pessoas agrediam o chão. E o pó levantava-se. O pó no ar. Nas nuvens. Espalhado na pele de todas aquelas pessoas. Aquelas pessoas desfiguradas. Vultos enegrecidos e manchados pela sujidade da atmosfera. Eu, pálida, da cor da cal, exposta a todos os meus demónios.
Os demónios moviam-se à minha volta, em trejeitos estranhos, como se dançassem ao som de outro mundo. O mundo dos meus espíritos mortos. A música fazia eco nos seus crânios vazios e voltava em lâminas contra o meu peito. Gotas de sangue que escorriam pelo meu corpo, como se fosse o suor de todas aquelas pessoas. Corri ao ritmo do barulho. Mas os meus pés estavam soldados ao chão, como se a força da gravidade fosse maior ali. Como se os demónios me queimassem a roupa para me prenderem pela pele. E as pessoas continuavam suspensas numa nuvem de pó.

Por entre as pessoas e os demónios vi o meu amor. O meu amor olhou-me, penetrou-me e viu-me a carne. Estendi-lhe a mão tatuada de um pó sangrento. O meu amor virou-me a cara e camuflou-se na multidão. Corri em nuvens de pó. E os meus demónios entrelaçavam-se nos meus membros como parte de mim. Num segundo parei e caí. As pessoas no pó morreram. Deixaram-me no mundo dos demónios que são meus. No mundo em que o meu amor não me dá a mão. No mundo em que de nada serve ter um coração.

sábado, 24 de maio de 2014

Ode ao amor

Ao amor que arde
Que me consome
Um bem-haja.

Desta vida não mais levarei
Só o amor
O amor que dói
Que dói sempre
Que me vive
Por o sentir
Nem que mais não haja.

O amor que ainda me faz chorar
Sem lágrimas
A lâmina fria
De te ver com outro corpo
O gume que me diz que tenho coração
E que ainda bate
Quando existes perto de mim.

Ao amor que destrói
Que me partiu
Um bem-haja.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um abraço frio

Abraços frios. Tudo o que tenho para te dar. Se não os quiseres levar contigo, deixa-me caída na cama despida de fervor, com o sol a entrar pela janela suja. Se os quiseres para ti, podes ficar perto de mim, tão perto que ouças os meus pensamentos. E eu os teus.
Fossem os cinco sentidos reais e eu fecharia os olhos para saber quando me tocas, para te sentir tão perto como se me arrancasses as vísceras. Se os nossos corpos ficassem à mesma temperatura, ouviria a tua respiração, como se te abraçasse os pulmões. Mandaria o vento parar e o mundo calar-se, só para te ver de longe e sorrir. E quando chegasses perto de mim, respirava fundo para ter a certeza que o teu perfume ia comigo pelo caminho.
Mas quem és tu? Existes no mesmo mundo que eu?
Mesmo que tu sejas tu, aqui onde eu estou, o amor que por ti tenho não sinto. Às vezes as pessoas não morrem quando o corpo pára. Vão morrendo gradualmente, por dentro, até que já nem elas são. Até já não sentirem nada. Até não haver mais nada para além de um monte de carne desconjuntado, quente como todos os outros e contudo frio como a brisa de uma montanha num dia de Inverno.