As lágrimas que dos meus olhos partem
Há muito deixaram de me pertencer.
Porque não é a mim que dói,
Nem sou eu que sofro.
Choro porque dói ver doer
E sofro por ver sofrer.
Não viste que o mar ainda vai alto?
Não partas sem que o abismo acalme
E as ondas cessem.
Por agora, não caminhes!
As ondas ainda fustigam as rochas
E a praia ainda estremece.
Sempre que a alma me doa
E o espírito se abale,
Não terei para onde correr.
Se ao sombrio passado me abraçar
E por rumos incertos me perder,
Onde estarás para me encontrar?
Canso-me de esperar pelo tempo,
Pelo dia em que heróis não mais sucumbirão.
Poderei então partir sossegada,
Sofrer a dor que a mim pertence,
Derramar as lágrimas que de mim provêm
E ser o corpo que só de mim depende.
Porque agora não sou eu quem parte
Mas sou eu quem alberga o medo.
Ela vive para sempre. Contudo, repousa numa câmara de ar fértil. E, se sacudida do seu torpor, ergue-se para escrever. O que escreve?
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domingo, 18 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
Pó
Tenho em mim uma turva alma.
Desabou sobre mim como tempestade,
Ao abrigo da penumbra do nevoeiro.
Com o vento veio o pobre pó da terra
Que gira desenfreadamente a meus pés.
Porque há muito que não chove
E o pó não abafa na terra molhada.
Marcham gritos e levanta-se o pó.
As almas pairam sobre os corpos,
Que pelas ruas exibem o seu ar altivo.
Sinto-os tocarem-me cada órgão;
Sinto-os trespassarem-me as vísceras.
Esqueci o tempo em que me encharcava
Com a chuva que há muito deixou de cair.
Desabou sobre mim como tempestade,
Ao abrigo da penumbra do nevoeiro.
Com o vento veio o pobre pó da terra
Que gira desenfreadamente a meus pés.
Porque há muito que não chove
E o pó não abafa na terra molhada.
Marcham gritos e levanta-se o pó.
As almas pairam sobre os corpos,
Que pelas ruas exibem o seu ar altivo.
Sinto-os tocarem-me cada órgão;
Sinto-os trespassarem-me as vísceras.
Esqueci o tempo em que me encharcava
Com a chuva que há muito deixou de cair.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Débil corpo
Calou-se a voz do Mundo.
Emudeceu.
Senti-lhe o eco, profundo,
Até a música esmorecer.
Onde foste tu, que não te vi partir?
Sumiu-se o som da voz que me encanta,
E cada cego passo procura não tombar.
Surdo é o assombro que me enche a alma.
Conheces-me ao ponto de querer fugir?
Neste negro clarão da esperança, confio-te cada fragmento das minhas entranhas.
Este amargo silêncio faz de mim um nada;
Um organismo de movimentos involuntários;
Um corpo meu que nem de mim depende.
E por tudo o que já foi meu acelero o passo,
Por cada pedaço de mim que foi real,
Por cada recordação que guardo na mão,
Vivo.
Cada célula de mim que tem medo
Vale por cada memória que possuo
E cada agora que me rouba a realidade
Vale por cada abraço que foi real e meu.
Se por vias de vida te pudesse oferecer
Todas as moléculas de energia em mim criadas;
Se por magia soubesse dar o que de melhor possuo:
Cada gota de sangue que me corre nas veias;
Cada batimento que me explode no peito;
Cada neurónio que sobrevive às mensagens de dor;
Cada pedaço de vida em mim;
Salvar-te-ia dos perigos deste Mundo
E da irrealidade das vozes que há muito se calaram.
Se ao menos o teu corpo dependesse de mim…
Emudeceu.
Senti-lhe o eco, profundo,
Até a música esmorecer.
Onde foste tu, que não te vi partir?
Sumiu-se o som da voz que me encanta,
E cada cego passo procura não tombar.
Surdo é o assombro que me enche a alma.
Conheces-me ao ponto de querer fugir?
Neste negro clarão da esperança, confio-te cada fragmento das minhas entranhas.
Este amargo silêncio faz de mim um nada;
Um organismo de movimentos involuntários;
Um corpo meu que nem de mim depende.
E por tudo o que já foi meu acelero o passo,
Por cada pedaço de mim que foi real,
Por cada recordação que guardo na mão,
Vivo.
Cada célula de mim que tem medo
Vale por cada memória que possuo
E cada agora que me rouba a realidade
Vale por cada abraço que foi real e meu.
Se por vias de vida te pudesse oferecer
Todas as moléculas de energia em mim criadas;
Se por magia soubesse dar o que de melhor possuo:
Cada gota de sangue que me corre nas veias;
Cada batimento que me explode no peito;
Cada neurónio que sobrevive às mensagens de dor;
Cada pedaço de vida em mim;
Salvar-te-ia dos perigos deste Mundo
E da irrealidade das vozes que há muito se calaram.
Se ao menos o teu corpo dependesse de mim…
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
O tempo urge
O tempo urge. Gritam os segundos que batem na torre - a forte torre do relógio.
Sob a ponte corre o rio. À margem, as árvores dançam a música que é do vento, e só do vento. Mas tudo é do Mundo.
Vi o Mundo entrar sorrateiro, pela porta dos fundos. Vinha sozinho e cansado, mas esboçou um sorriso assim que os seus olhos encontraram os meus. Pediu-me que fosse com ele e, sem segundos pensamentos, corri para os seus braços. Sabia que o vento soprava frio, lá fora, mas apenas pensei no quanto me apaziguava aquela música – aquela exacta música que apenas ao Mundo pertencia.
Fomos de mãos dadas, eu e o Mundo. O ruído dos autocarros em fúria e dos condutores stressados não foi mais do que um desabafo da cidade. O Mundo ouviu, sorriu, mas quem lhe segurava a mão era eu!
Terá o Mundo pensado em mim, nos últimos dias? Ou nos últimos anos, porque o tempo urge. Sinto-o quieto, calado, melancólico e distraído. Será que apenas já não o sinto? Terá o Mundo crescido demais? Demais para mim - porque só a mim quero que pertença. Quero o Mundo de volta. De volta para mim – porque só a mim quero que pertença.
Ainda há pouco tempo desde que o Mundo me falou. Será mesmo pouco, todo este tempo? Não me posso esquecer que o tempo urge. Vestiu-se para mim, de fato e gravata. Assim que me viu parada no lancil, do outro lado da rua, sorriu. Retribui-lhe o sorriso, enquanto atravessava a passadeira. Estendi-lhe a mão – não naquele gesto sóbrio e formal que as pessoas têm – e ele cessou o sorriso. Emudeci.
- Adeus. – Proferiu, num tom gélido e amargo.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Linhas
Há linhas, mais de mil linhas, que me levam para longe. Mas essas são também as linhas que me trazem de volta, que me fazem regressar. Regressar de onde? Regressar para onde? Para casa.
Lembro-me de dias frios e dias quentes, quando a mágoa emergia e se afogava, em ciclos ininterruptos. Havia momentos! Momentos de tempo curto, momentos em que conseguia respirar, sem suspiros, sem doer. Simples e naturalmente…respirar.
Casa, a minha casa. Que falta me faz a minha casa! Não falo das quatro paredes, aquelas quatro paredes, montadas daquela forma, exactamente daquela forma. Falo dos sorrisos e das gargalhadas, do peso que me saía das costas assim que cheirava aquela áurea – aquela exacta áurea. Falo dos meus olhos verdes – mas não aqueles que se abrem no meu rosto –, com um brilho em forma de força que nunca esmorecera. Pelo menos, não até agora. E os assobios ruidosos pelos cantos, as corridas e saltos histéricos dos nossos companheiros, as vozes domingueiras! Eram os curtos finais de semana em que rejuvenescia. As vozes, aquelas vozes, são agora gritos ou sussurros cansados. E o timbre, o inesquecível timbre com que cresci… Mudou, tal como o tudo cá dentro. Às vezes, parece que já nem se fala a mesma língua: ninguém se entende; ninguém sorri.
domingo, 6 de novembro de 2011
Adormecer
Ouvem-se berros abafados, muito distantes, noutro mundo - diferente deste em que vivemos, muito afastado deste em que sorrimos, de vez em quando.
Os berros crescem. Quando olho para trás a tentar perceber o que se passou, já eles são gritos! Histéricos, tempestivos, desesperados, amaldiçoando a vida deste outro mundo em que vivemos, deste em que raramente sorrimos.
Mal caminho e o frio abate sobre as minhas costas todo o seu gelo forçado, pesado, intempestivo. Neste mundo as pessoas caem-me aos pés. Não há pernas que segurem tanto peso. As almas largam-me sem piedade, reprovam os pesadelos deste mundo de onde nunca sairemos acordados.
Nunca cheguei a acordar, deste mundo onde o desespero dita as leis e os gritos são seus súbditos. Talvez tenha apenas que adormecer – ir para aquele mundo mudo, pacífico, diferente deste em que ninguém sorri.
Os berros crescem. Quando olho para trás a tentar perceber o que se passou, já eles são gritos! Histéricos, tempestivos, desesperados, amaldiçoando a vida deste outro mundo em que vivemos, deste em que raramente sorrimos.
Mal caminho e o frio abate sobre as minhas costas todo o seu gelo forçado, pesado, intempestivo. Neste mundo as pessoas caem-me aos pés. Não há pernas que segurem tanto peso. As almas largam-me sem piedade, reprovam os pesadelos deste mundo de onde nunca sairemos acordados.
Nunca cheguei a acordar, deste mundo onde o desespero dita as leis e os gritos são seus súbditos. Talvez tenha apenas que adormecer – ir para aquele mundo mudo, pacífico, diferente deste em que ninguém sorri.
domingo, 16 de outubro de 2011
Conclusão
Cá dentro, algo imenso mudou.
As coisas frívolas, as pessoas pequenas, as vontades mundanas, os risos sépticos, as piadas secas, os desamores, os gritos, as vozes, a multidão louca.
Sem sentido.
Cá dentro, algo aconteceu, alguma coisa mudou.
As coisas frívolas, as pessoas pequenas, as vontades mundanas, os risos sépticos, as piadas secas, os desamores, os gritos, as vozes, a multidão louca.
Sem sentido.
Cá dentro, algo aconteceu, alguma coisa mudou.
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