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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Esta é a última vez que te escrevo.
Não me vou desculpar pela linguagem pseudopoética. É neste exacto tom seco e melancólico que as cartas devem ser escritas, principalmente as cartas de despedida.
Não deixo de te escrever por falta de vontade, mas por falta de tempo para pensamentos amargos. Sinto o mesmo vazio inóspito e sei que nunca me abandonará. Aprenderei a viver com ele, da mesma forma que aprendi a caminhar. Todos nós caímos quando caminhamos pela primeira vez, mas isso não nos impede de, um dia, aprender a correr. Alguns de nós chegam mesmo a correr como uma flecha. E por falar em aprender a andar, lembras-te de quantas vezes caí e me levantei, antes de saber andar direita?
Sei que sou um monstro egoísta, igual a todos os outros. Por vezes, gosto de pensar em mim como uma pessoa diferente, generosa e fiel, mas a verdade é que sou igual a toda a gente. Por dentro somos todos iguais: disformes, hediondos, detestáveis. Já alguma vez te deparaste com um animal esfolado? Por baixo da pele, não há criatura viva que não seja monstruosa.
Para ti, talvez tudo isto seja um pouco inesperado, contudo quero que saibas que levou meses de ponderação. Não penses que o meu ser gelou como os riachos em Janeiro, ou que o meu amor secou como as nascentes no Verão. O meu coração arde por deixar de te enxergar.
Espero, um dia, voltar a ver-te, se caminharmos na Terra sob uma forma diferente. Talvez sejamos dois gatos que vagueiam pela cidade, numa vida mais simples e menos morta.
Sinto que ainda ficou tanto por dizer que me pesa ser tão breve. Prometo apenas que tentarei ser feliz. Se o teu interior não for tão monstruoso quanto o meu, ficarás feliz por mim.

Nunca te esquecerei.

Com um oceano de saudade,
Janine

domingo, 5 de agosto de 2012

Sou feita de palavras


Sou feita de palavras. Caem sobre mim como a chuva morna de um dia de Verão. Sinto-as como se fossem carícias, beijo-as como se nada mais desejasse. À noite, deito-me com elas. Giram sobre o meu corpo, como se me abraçassem. Sirvo-me delas quando amo. Sei manipulá-las quando odeio. E mesmo assim nunca saberei aplicá-las.
Porque sou dona de uma voz muda, de uma fantasia que estancou. Sou o silêncio das palavras que me moldam. Sou um poema queimado, uma carta de amor rasgada. Sou um espírito vagabundo, num cais abandonado. Sou a água que ceifa o fogo. Sou tudo isto e não sou nada.
Não sou nada para ti. Se algum dia me amaste, não me escorraces, não me fustigues. Não grites mais! Não me olhes assim, da coroa do teu amargo silêncio. Não vês que sou feita de palavras e as deixava a todas por ti?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Poema incompleto

E este país enfermo
A quem resta apenas morrer.

O ruído ecoa num assombro
As pessoas oferecem gargalhadas
Como é fácil fazê-las sorrir.

sábado, 30 de junho de 2012

A quem perdeu a alma


Faltavam poucos minutos para as oito, quando despertou do leve sono que a possuíra. Assim que sentiu o comboio a abrandar, ergueu-se e aguardou. Lá fora, reinava o estridente ruído das rodas a serem travadas pelo ferro das velhas linhas. A multidão apressada apoderou-se de toda a plataforma e ela apenas teve tempo de se desviar… Antes que tropeçasse e fosse esmagada por todas aquelas solas alucinantes, antes que lhe roubassem fios de cabelo ou a íris dos olhos.
Passada a loucura, caminhou lentamente, de mochila às costas e saco de rastos. Não entendia o porquê de tanta pressa, nenhuma daquelas pessoas tinha o comboio para apanhar. Afinal, tinham acabado de o abandonar. De curtos calções desbotados, recordou as cicatrizes nos joelhos, levou a mão ao canto da boca e lembrou-se do quão certos estavam os que lhe diziam Vai devagar, senão cais. Todas aquelas pessoas se tinham esquecido disso. Teriam pressa de morrer ou desejariam desesperadamente viver?
Ao fundo da rua, ele esperava-a. Erguia-se numa postura cansada, demasiado débil. Acenou-lhe e aguardou, sorridente. Estava ainda mais magro que da última vez que o vira. Apressou-se a atravessar a rua, imitando todas aquelas pessoas – talvez fosse suposto ser como elas –, e entrou no carro.
                - Jantas comigo? – Perguntou ele.
                - Foi por isso que vim mais cedo.

Não proferiram nem mais um som e ela evadiu-se para o mundo dos pensamentos. Enraivecia-a toda aquela saudade de tudo. Era como se as pessoas à sua volta tivessem perdido a alma, ou a essência, ou o que quer que seja que o mundo lhe chama. Era uma saudade que lhe sugava a vida. Que tortura cruel, a de sentir o coração a arder por quem está mesmo ao seu lado. Talvez tudo aquilo fosse algo demasiado utópico para alguém o sentir de verdade. Afinal de contas, a palavra saudade só é dita em duas línguas. Talvez o seu azar fosse apenas o de ser portuguesa.
Arranjou o cabelo, enxaguou as têmporas com umas gotas de água fria e sentou-se à mesa. Enquanto comiam, fez por não deixar o assunto morrer. Ele terminou mais cedo e, sem dizer mais nada, esgueirou-se pela porta entreaberta. Ela ficou sozinha, com saudades do tempo em que ele ainda lhe tirava as espinhas do peixe. Agora, era ela que tinha que lhe separar a carne dos ossos. Não o voltou a ver. Ficou ali apenas, de olhos atentos no vazio, a pensar no quanto a dádiva da vida podia ser cruel. De repente, ergueu-se e saiu. Tinha um desejo desesperado de viver.

sábado, 26 de maio de 2012

Não me digas o teu nome


Não quero saber o teu nome. Não quero saber de onde vens, apenas porque aqui estás. Revela-me tudo aquilo que és. Mas, imploro-te,  nunca me digas o teu nome.
Fala-me do que amas e eu dir-te-ei o quanto amo as palavras. Canta-me as canções que te encantam e eu mostrar-te-ei a beleza de um violoncelo, ou de um piano que grita os desamores de Chopin, quem sabe.
Não me toques na pele, olha-me nos olhos, apenas. Podes olhar-me bem cá dentro, mas se me tocares verás que ardo em brasa.
Perguntar-te-ei o que te inunda os olhos e contar-te-ei como me doeu aprender a chorar. Ainda agora adoeço de cada vez que choro. Posso, no entanto, dizer-te que apenas choro por saudade. Neste momento, tenho saudades de que sejam para mim. Já alguém foi para ti? Ser, por amor a alguém. Haverá sentimento mais puro?
Contar-te-ei de mim, também. Mas nunca me perguntes quem fui. Revelar-te-ei todos os meus segredos, mas, por favor, não me perguntes quem fui.
Dir-te-ei o quanto gosto de café frio, chá quente e chocolate amargo. Saberás dos meus vícios e da minha intenção de os esquecer a todos antes dos 21. Verás que gosto da chuva porque me desperta os sentidos e a cor dos olhos. Sentirás que gosto de pessoas fechadas e que desejo tudo o que não posso ter. Perceberás que o ruído me enlouquece, que não gosto de festas. Rir-te-ás do quanto desprezo pessoas que falam por falar. Que beleza pode haver naqueles que afogam a excelência das palavras em discursos desprovidos de qualquer sentido? Contudo, amo aqueles que me hipnotizam com palavras.
Ficarei feliz, se nunca me disseres o teu nome. Contas-me tudo? Conversemos, para sempre.

domingo, 13 de maio de 2012

Ar puro


Conheci uma sensação pura. Olhou-me de longe, sorriu e caminhou na minha direção. Penetrou-me as veias e viajou por cada pedaço de mim. Invadiu-me o cérebro, contaminou-me o coração e dispersou para os pulmões. Expirei, num suspiro. Que sensação fácil, esta de alívio. Um único bafo de ar tirou-me toneladas das costas. Nunca antes me tinha sentido tão leve. E este ar que tenho respirado é como bálsamo. Já repararam no quanto é bom viver? Ter a sorte de estar vivo, com um coração que bate e uma cabeça que pensa. Viver é assim simples.
Ficou a saudade das pessoas bonitas e a recordação do que foi abraçá-las. Ficou o amor que lhes tive e terei eternamente. Ficou a diferença entre ter força e ser de ferro. Ainda que agora sejam apenas sombras disformes do que outrora representaram, estão vivos. Haverá algo mais encantador do que simplesmente estar vivo?
As pessoas pequenas não cresceram, as vontades mundanas continuam vazias e os desamores não deixaram de ser ridículos. De que me interessa tudo isso? Não mais chorarei por coisas frívolas. Cada lágrima é ouro que somente deve ser derramado por diamante.
Não sei ser feliz, mas sou feliz.

domingo, 29 de abril de 2012

De Primavera em Primavera

Adeus poesia que me prende.
Ou será que me liberta?
Quando chove eu volto a mim:
Frágil, com frio, deixando pedaços aqui e ali.
Será que caí ou será nunca me cheguei a levantar?

Quero fugir destes dias, para algum lugar onde o vento não corra e as árvores não murchem. Quero apenas fugir de tudo, deambular por aí, de Primavera em Primavera.
Quero as ruas sem carros e os caminhos desertos. O sol a acariciar-me o rosto e os malmequeres a traçarem os campos. Quero provar as cores todas do mundo e saborear o calor do seu aroma, ouvindo as melodias da Natureza.
Quero umas mãos novas, mais calejadas e menos ingénuas. E um coração que ame mais, que me faça querer ficar e deixar de fugir. Ou um que não ame de todo, talvez o meu já ame demais.
Quero umas pernas novas, que não caiam no encalço do caminho certo e que saibam correr de Céu em Céu. E uma vontade sem medo de sonhos; uma vontade que sorria ao futuro. Não esta que não sabe se quer ficar ou se apenas tem medo de fugir.
Quero um corpo novo, que se deite, durma e acorde. Não este que sempre cai na tentação de viver adormecido.