Dormi a viagem toda. Sonhei com um acordeão e diversos timbres
em uníssono. Lembro-me apenas de uma pequena janela por onde se via o rio e o nevoeiro
da manhã a levantar, um conjunto de vozes fracas ao som de um banjo, igual ao
que sempre quis ter e, escuridão. Queria ter visto a paisagem, como faço sempre
que não adormeço no embalo das linhas do comboio. Mas o cansaço apanhou-me desprevenido
e tomou-me como morto nos seus braços.
Despertei num corpo entorpecido e estiquei as pernas e os braços. Reparei que
alguém se sentara ao meu lado, mas não me recordo se era homem ou mulher, tal
era a minha falta de interesse no mundo. O comboio seguia perto da costa e o
mar confundia-se com o areal. Senti um nó na garganta por não poder parar e
inspirar a brisa.
Havia já algum tempo desde que algo em mim mudara. Deixei de desejar toques
aleatórios, pessoas vazias. Parei de ignorar as gotas de sangue que me
escorriam do rosto e caiam no chão, enquanto o meu corpo ardia por arder.
Sempre fora aquele que no seu silêncio grita por salvação e nunca permite que
alguém lhe estenda a mão. Porque ter pessoas por perto é uma tempestade; os
galhos soltos no vento vão-se espetando aqui e ali, vagarosamente, até que não
há mais partes do corpo sem escoriações. E, mesmo que fosse possível escapar do
furacão, sairíamos num corpo diferente, sem conserto. Contudo, não sei se assim
sou por me amar demais, ou por não me amar de todo.
Moldei o corpo ao banco que cada vez me parecia mais desconfortável. Senti uma
pontada de dor do estômago quando recordei o quanto mal tratei o meu corpo, em
tempos. Temo por aqueles que, tal como eu, se esquecem que da mesma forma que
só há uma alma, só existe um corpo. Não é apenas um pedaço de carne e
ossos que enchemos com pensamentos. Não é possível saltar de corpo em corpo, à
medida que o destruímos. Precisava que alguém me recordasse, uma vez por outra,
que pode não haver alma sem corpo. Poderá ser só isto; poderá não haver mais
nada para além disto.
Estes pensamentos filosóficos da treta serviram apenas para fugir a um assunto
específico: ela. Não quero sequer proferir o seu nome, porque verbalizar as
coisas torna-as reais demais. Muito mais verdadeiras do que apenas escrever
sobre um sujeito na terceira pessoa, em que há uma fronteira evidente entre
realidade e ficção. Uma vez por outra, quando conhecemos alguém pela primeira
vez, corre-nos nas veias uma empatia totalmente irracional. Chega até a parecer
que afinal já nos tínhamos encontrado antes. Mas não, não nesta vida, pelo
menos. Não me recordo se simplesmente a achei atraente, ou se tive
imediatamente essa sensação. Estava demasiado embriagado, com uma variedade
ridícula de coisas diferentes. À primeira vista, ela personifica a beleza e o
silêncio. É extremamente difícil tentar adivinhar o que lhe vai na cabeça.
Quando olha as pessoas, é impossível dizer se as ama ou odeia. Quando me
falaram dela, referiram algo de ser impossível resistir àquele sorriso. Não
poderia concordar mais.
Algum tempo depois, descrevê-la-ia com outras palavras: irritante, desagradável
e convencida. Contudo, era totalmente viciante. Não conseguia largá-la, como se
tivesse entrado num vórtice. Ainda sem saber se ela me odiava ou não, era
impossível voltar atrás. Tinha uma alma velha, um pensamento fechado. Pela
primeira vez, havia conhecido alguém que falasse menos do que eu próprio, o que
me obrigou imediatamente a soltar as rédeas à voz e falar até que me
dilacerasse as cordas vocais.
Quando dei por mim, odiava-a por me causar tanta dependência;
odiava-a, por nunca lhe poder tocar; por estar tão longe, mas tão perto.
(continua)
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