Quando caiu sobre a vazia cama desfeita, já o negro céu de
Inverno desbotava, sem que sequer se avistasse o Sol em parte alguma. Endireitou
a cabeça na almofada e fechou os olhos, estremecendo num arrepio que lhe
percorreu a coluna até se perder nos lençóis. Inspirou profundamente, numa
tentativa vã de se entregar a um ansioso sono cansado. Era como se pela
primeira vez tivesse consciência de todos os neurónios que lhe compunham o
corpo. Com as pálpebras caídas, era como se visse raios de energia a saltar de
célula em célula, ricocheteando aqui e ali, sem nunca parar de o manter
acordado; como se cada pedaço do seu cérebro fossem minúsculas roldanas
minuciosamente encaixadas umas nas outras, a girar à velocidade da luz.
Se me deito, vejo o teu rosto nas paredes do quarto e percorro
cada milímetro dos teus lábios com o olhar, para assegurar que não me esqueço da
textura suave que deixaste impressa nos meus; para ter a certeza que não me
esqueço do mais ínfimo pormenor. Se tento fechar os olhos, sinto o aroma da tua
pele tão vivo em mim, que poderia jurar ser capaz de te tocar. Se deambulo
pelas ruas desta velha cidade, ouço as tuas gargalhadas em cada esquina,
procuro-te em toda a parte… Quando te encontro e por fim te abraço, desfazes-te
em pequenas gotículas de nevoeiro. Porque não estás tu aqui? Comigo! Não me
deixes perdido entre o que tive e o que não sei se tenho. Cada fracção de
oxigénio que inspiro na tua ausência envenena um pedaço de mim. Volta a olhar-me
nos olhos como se me invadisses a alma e soubesses exactamente o que estou a
tentar esconder. Devolve-me o abraço que deixaste cravado na minha alma.
Devolve-me a embriaguez da tua presença!, pensou, como se não existisse mais
ninguém à face da Terra.
(...)
1 comentário:
Inacreditável Jane. Está mesmo surreal. Muitos parabéns.
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