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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Conto

(...)
Quando caiu sobre a vazia cama desfeita, já o negro céu de Inverno desbotava, sem que sequer se avistasse o Sol em parte alguma. Endireitou a cabeça na almofada e fechou os olhos, estremecendo num arrepio que lhe percorreu a coluna até se perder nos lençóis. Inspirou profundamente, numa tentativa vã de se entregar a um ansioso sono cansado. Era como se pela primeira vez tivesse consciência de todos os neurónios que lhe compunham o corpo. Com as pálpebras caídas, era como se visse raios de energia a saltar de célula em célula, ricocheteando aqui e ali, sem nunca parar de o manter acordado; como se cada pedaço do seu cérebro fossem minúsculas roldanas minuciosamente encaixadas umas nas outras, a girar à velocidade da luz.
Se me deito, vejo o teu rosto nas paredes do quarto e percorro cada milímetro dos teus lábios com o olhar, para assegurar que não me esqueço da textura suave que deixaste impressa nos meus; para ter a certeza que não me esqueço do mais ínfimo pormenor. Se tento fechar os olhos, sinto o aroma da tua pele tão vivo em mim, que poderia jurar ser capaz de te tocar. Se deambulo pelas ruas desta velha cidade, ouço as tuas gargalhadas em cada esquina, procuro-te em toda a parte… Quando te encontro e por fim te abraço, desfazes-te em pequenas gotículas de nevoeiro. Porque não estás tu aqui? Comigo! Não me deixes perdido entre o que tive e o que não sei se tenho. Cada fracção de oxigénio que inspiro na tua ausência envenena um pedaço de mim. Volta a olhar-me nos olhos como se me invadisses a alma e soubesses exactamente o que estou a tentar esconder. Devolve-me o abraço que deixaste cravado na minha alma. Devolve-me a embriaguez da tua presença!, pensou, como se não existisse mais ninguém à face da Terra.
(...)

1 comentário:

Profeta disse...

Inacreditável Jane. Está mesmo surreal. Muitos parabéns.