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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Caminhar sozinha

Há uma diferença descomunal entre caminhar sozinha aqui ou lá. Caminhar sozinha devia ser apenas isso, mas toma significados completamente diferentes, dependendo da história da calçada que os meus passos esmagam, com aquela monótona cadencia.
Aqui, caminhar é um meio para atingir um fim; lá, caminhar é já o fim, um fim. O acto é o mesmo, o corpo e os seus movimentos inconscientes são exactamente os mesmos. O que muda é o cenário… Acreditem ou não, um cenário pode mudar tudo.
Hoje aqui estou eu, a caminhar sozinha nestas ruas inundadas de um ar diferente, cheio de algo indefinido. Gostava de saber dizer mais, mas só sei que é algo que ainda me satisfaz os pulmões e a alma na totalidade. Como se tudo isto fosse um canto de planeta onde a poluição não chegou...
Senti um cheiro leve a erva cortada de fresco e inspirei profundamente, só para ter a certeza que não era só o meu subconsciente a pregar-me uma partida. Olhei em volta à procura do típico jardineiro municipal com a sua maquineta estranha. Não se encontrava ao alcance da força dos meus olhos, mas tive a certeza que algures ali perto, estava o homem de jardineiras verdes e fitas reflectoras. Conheço isto melhor que a palma das minhas mãos.
Acho que é este algo que define o termo casa. Consigo sentir-me protegida, sem sequer me ver rodeada de muralhas.
Lá é diferente. A erva cortada de fresco não tem o mesmo cheiro. Os jardineiros não têm histórias para contar… O ar não me enche os pulmões, chego a sentir-me a asfixiar. Pode até ser só paranóia minha, mas o oxigénio parece mais pesado e a atmosfera exerce uma pressão mais elevada sobre a minha cabeça, como se me pudesse fazer implodir a qualquer momento. Não me sinto protegida, nem debaixo dos lençóis, com a cabeça coberta. Sou um animal arrancado do seu habitat natural sem pré-aviso.
Acho que só a chuva tem o mesmo sabor. As paredes e as ruas têm alma, é verdade que têm. E é igualmente verdade que consigo caminhar acompanhada, tal é a quantidade de almas que se entrelaçam com a minha a cada pestanejar… É tudo uma questão de perspectiva. Mas - e isto posso assegurar, independentemente da perspectiva – não há nada como regressar a casa.

1 comentário:

Anónimo disse...

Não sei onde vais buscar tais ideias, tal criatividade. Fantástico Jane. A nossa casa é a nossa casa.
bjxs João Campos