Sentiu dificuldade em respirar, como se a traqueia tivesse ficado mais fina, ou os brônquios menos longos. Engoliu em seco, na tentativa de ignorar aquela impressão. O estômago doía-lhe e não era fome. Levou as mãos às têmporas e massajou-as violentamente. Tudo aquilo devia ser o que as pessoas chamam arrependimento. Devia ser aquele o resultado físico dos actos inconsequentes. Precisava de um cigarro, o mais depressa possível. As mãos tremiam freneticamente, enrolou os dedos e apertou-os com toda a força que dispunha no momento, até as unhas se enterrarem na carne e a dor tocar o limiar do intolerável. Soltou um suspiro sonoro, no ápice em que enrugava os cantos dos olhos e relaxava os restantes músculos do corpo.
Pediu um cigarro ao velho jardineiro. Não o conhecia, nunca o tinha visto antes, mas o bigode grisalho, desbotado e ruço nas pontas e as unhas intensivamente queimadas denunciavam o vício. Chegou a ter a impressão de que entre os dois dedos do velhote existia uma espécie de vale, como um calo de segurar cigarro atrás de cigarro. Pode ter sido uma ilusão, mas como qualquer outra coisa, mesmo um peso leve como um cigarro, quando suportado durante um longo período de tempo, deixa as suas marcas eternamente. Indagou-se quantas mais cicatrizes teria aquele homem, quantos mais segredos esconderia por trás daquelas jardineiras rotas e daquele chapéu de palha. Indagou-se, interiormente, de forma retórica. Nunca fez tais perguntas ao homem. Limitou-se a sorrir e agradecer quando este lhe estendeu o maço cinzento de SG ventil.
Odiava SG ventil, queimava demais na garganta. Levou a mão ao bolso, tirou um isqueiro bic vermelho e acendeu o horrível e minúsculo cigarro.
A impressão estranha na traqueia tinha piorado. Agora não era só a traqueia. Parecia que os pulmões tinham diminuído o seu volume, como uma bóia a quem alguém tira ar e fecha a válvula antes de voltar a encher. Parecia que o ar que lhe chegava aos alvéolos pulmonares não era suficiente para as necessidades do seu corpo. Tinha a certeza que se não se acalmasse cairia naquelas escadas a qualquer momento. Não sabia se devia acabar o cigarro, ou apagá-lo imediatamente no lancil. Acabou por decidir inspirar mais uma fracção de fumo, na esperança de que a nicotina lhe acalmasse os sentidos e lhe dilatasse as vias respiratórias.
- Estás apaixonada?
- Não sei.
- Não sabes? Como é que não sabes?
- Simplesmente, não sei.
- Como é que ainda consegues gostar de mim?
- Não sei, mas é tão natural como respirar.
- Ficas por perto?
- Fico, para sempre.
Ela vive para sempre. Contudo, repousa numa câmara de ar fértil. E, se sacudida do seu torpor, ergue-se para escrever. O que escreve?
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Não sei fazer sentido
Estou farta de tentar fazer sentido, dar sentido, criar sentido. Não são as coisas que temos que nos edificam, mas as que não temos. Não tenho culpa. As coisas que nunca tive não fazem sentido. É tudo desprovido de qualquer sentido. É como alguém que construiu uma casa e se esqueceu da porta. O que não faz sentido. Ou já estávamos lá dentro, ou nunca conseguiremos entrar. Ou já estávamos cá fora, ou seremos eternos prisioneiros. Não ter porta é o que a faz a casa e não uma casa.
Há tanto que ainda me estrangula o coração. Não sou intocável. Preciso de um beijo de boa noite, quando fica escuro. Gosto que me segurem na mão a atravessar a rua. Preciso de ter alguém atrás de mim, que me puxe para o caminho certo. Mas já está tão escuro. Consegues ver-me? Consegues agarrar-me? Queres apanhar-me? E se eu caio? Não vejo nada, em lado nenhum.
Avançar, tornar-me delicadamente intocável. Isto tudo queima-me mais do que algum dia mostrei a alguém. Queima bem cá dentro. Sou capaz de afirmar com toda a certeza, é aqui que arde, exactamente entre o que tenho e o que nunca tive.
Subir, chegar ao topo de tudo. Queria estar ligada ao mundo, sem medo de desabar. Mas eu nunca tive pára-quedas. Quem é que me vai impedir de cair? Queria saber dizer que nunca vou cair. Mas dizer nunca é uma promessa, eu nunca me vou medicar com a minha maior doença.
Há tanto que ainda me estrangula o coração. Não sou intocável. Preciso de um beijo de boa noite, quando fica escuro. Gosto que me segurem na mão a atravessar a rua. Preciso de ter alguém atrás de mim, que me puxe para o caminho certo. Mas já está tão escuro. Consegues ver-me? Consegues agarrar-me? Queres apanhar-me? E se eu caio? Não vejo nada, em lado nenhum.
Avançar, tornar-me delicadamente intocável. Isto tudo queima-me mais do que algum dia mostrei a alguém. Queima bem cá dentro. Sou capaz de afirmar com toda a certeza, é aqui que arde, exactamente entre o que tenho e o que nunca tive.
Subir, chegar ao topo de tudo. Queria estar ligada ao mundo, sem medo de desabar. Mas eu nunca tive pára-quedas. Quem é que me vai impedir de cair? Queria saber dizer que nunca vou cair. Mas dizer nunca é uma promessa, eu nunca me vou medicar com a minha maior doença.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O eco incerto do passado
Tenho saudades de te fazer feliz. Era bom acordar e ver tudo, sem sequer abrir os olhos ou dilatar as pupilas.
Dormir era perda de tempo. Sentia-me viva a ponto dos dias não serem suficientes, exigia as noites como o complemento certo, como o que me permitia ter a intensidade toda da vida. Eram raros os momentos em que o cansaço conseguia vencer a vontade de viver. As palavras eram tão cheias de tudo e continham tantas certezas, que acabavam por se tornar desnecessárias. O silêncio era tão natural e confortável como o respirar. O silêncio traduzia a nossa plena confiança.
Mas isso é tudo passado. Um passado tão harmonioso que ainda lhe consigo sentir o eco. A perfeição caminhou contra mim, no exacto momento em que deixamos de ser duas pessoas e nos tornamos uma só. Hoje sei que até a perfeição se parte, dada a total inconsequência da vontade humana.
Hoje, a vida é só um pedaço de sono cansado. Adormeço no exacto momento em que me levanto e o meu cérebro insiste em pensar. Adormecer tornou-se a forma mais simples de permanecer tantas horas acordada. Não és tu, nem tão pouco sou eu. São todas as pessoas que me fizeram desta maneira.
Se me calo, escondo. Se recorro às palavras, são todas ocas. Se sorrio, sou arrogante. Se me escondo, sou frágil. Se ignoro, sou fria! Se enfrento, sou louca! Eu costumava ter força, já fui estratega e soldado da minha própria guerra. Mas agora estou cansada e não quero decidir para onde vou. Quero que alguém me leve e me deixe viver no meu silêncio. Já não sei usar as palavras, já não consigo expulsar tudo em dois parágrafos escritos à pressa num banco de jardim. Acho que já não sei chorar, talvez as minhas lágrimas tenham congelado, como dizem por aí. Talvez não seja mesmo de confiança.
Estou estragada, desculpa. Cresci com o coração partido em pedacinhos...Não os tentes colar, eu sou mesmo uma peça avariada. A solução é sentir no meu silêncio, com os pedacinhos todos em uníssono. Ainda confio em ti, ainda sou capaz de encher uma caixa com o que restou de mim e dar-ta sem hesitar. Mas tu não deverias querer uma caixa tão pesada. Nunca poderias confiar no que se libertaria se a abrisses. Talvez um coração arruinado não valha o risco de uma vida inteira.
Dormir era perda de tempo. Sentia-me viva a ponto dos dias não serem suficientes, exigia as noites como o complemento certo, como o que me permitia ter a intensidade toda da vida. Eram raros os momentos em que o cansaço conseguia vencer a vontade de viver. As palavras eram tão cheias de tudo e continham tantas certezas, que acabavam por se tornar desnecessárias. O silêncio era tão natural e confortável como o respirar. O silêncio traduzia a nossa plena confiança.
Mas isso é tudo passado. Um passado tão harmonioso que ainda lhe consigo sentir o eco. A perfeição caminhou contra mim, no exacto momento em que deixamos de ser duas pessoas e nos tornamos uma só. Hoje sei que até a perfeição se parte, dada a total inconsequência da vontade humana.
Hoje, a vida é só um pedaço de sono cansado. Adormeço no exacto momento em que me levanto e o meu cérebro insiste em pensar. Adormecer tornou-se a forma mais simples de permanecer tantas horas acordada. Não és tu, nem tão pouco sou eu. São todas as pessoas que me fizeram desta maneira.
Se me calo, escondo. Se recorro às palavras, são todas ocas. Se sorrio, sou arrogante. Se me escondo, sou frágil. Se ignoro, sou fria! Se enfrento, sou louca! Eu costumava ter força, já fui estratega e soldado da minha própria guerra. Mas agora estou cansada e não quero decidir para onde vou. Quero que alguém me leve e me deixe viver no meu silêncio. Já não sei usar as palavras, já não consigo expulsar tudo em dois parágrafos escritos à pressa num banco de jardim. Acho que já não sei chorar, talvez as minhas lágrimas tenham congelado, como dizem por aí. Talvez não seja mesmo de confiança.
Estou estragada, desculpa. Cresci com o coração partido em pedacinhos...Não os tentes colar, eu sou mesmo uma peça avariada. A solução é sentir no meu silêncio, com os pedacinhos todos em uníssono. Ainda confio em ti, ainda sou capaz de encher uma caixa com o que restou de mim e dar-ta sem hesitar. Mas tu não deverias querer uma caixa tão pesada. Nunca poderias confiar no que se libertaria se a abrisses. Talvez um coração arruinado não valha o risco de uma vida inteira.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
O mundo está a arder
Sentei-me. As árvores que me limitavam o horizonte eram tão desalinhadas quanto a minha própria cabeça. As vozes esvoaçavam até aos meus ouvidos, até parecia que só a mim se dirigiam. Esqueci-me do barulho ensurdecedor daquela casa, esqueci-me que era capaz de ouvir, fechei os olhos, inspirei o ar quente de fim de tarde e esqueci-me de falar. A leve brisa tocava-me o rosto, as pernas, os braços e os ombros, já era a perfeição que me envolvia. Porque não posso eu ser como o vento e fugir de tudo? Porque não pode ser tudo tão fácil como respirar?
Desistir? Investir? Esquecer? Relembrar? Sonhar?!
Sei que levei as mãos à testa, sei que massajei as têmporas. Sei, porque é o que faço quando estou nervosa, quando contamino o meu cérebro com pensamentos de tudo ou nada. Não gosto de sentir vontade de arrancar o colar que já é parte do meu corpo, não gosto de me sentir a caminhar descalça no escuro, não gosto de ter medo de dar um passo em falso, não gosto de me sentir a sufocar.
Se pelo menos eles imaginassem o quanto eu dei de mim, o quanto ainda dou todos os dias… Talvez aí me vissem por dentro e ficassem orgulhosos. Ou talvez não. Talvez nada disto seja possível.
Talvez seja feliz, talvez sorria, talvez ame, talvez minta, talvez odeie, talvez olhe em volta, talvez deixe de me sentir descompassada, talvez volte a ter força.
Deixei de sentir o vento, o ar estava queimado. A alma voltou a tocar-me a pele. As vozes voltaram a ecoar na minha cabeça, aproximavam-se a cada segundo. Não sei se adormeci, ou se morri por momentos, mas senti-me a acordar de um mundo diferente.
Desistir? Investir? Esquecer? Relembrar? Sonhar?!
Sei que levei as mãos à testa, sei que massajei as têmporas. Sei, porque é o que faço quando estou nervosa, quando contamino o meu cérebro com pensamentos de tudo ou nada. Não gosto de sentir vontade de arrancar o colar que já é parte do meu corpo, não gosto de me sentir a caminhar descalça no escuro, não gosto de ter medo de dar um passo em falso, não gosto de me sentir a sufocar.
Se pelo menos eles imaginassem o quanto eu dei de mim, o quanto ainda dou todos os dias… Talvez aí me vissem por dentro e ficassem orgulhosos. Ou talvez não. Talvez nada disto seja possível.
Talvez seja feliz, talvez sorria, talvez ame, talvez minta, talvez odeie, talvez olhe em volta, talvez deixe de me sentir descompassada, talvez volte a ter força.
Deixei de sentir o vento, o ar estava queimado. A alma voltou a tocar-me a pele. As vozes voltaram a ecoar na minha cabeça, aproximavam-se a cada segundo. Não sei se adormeci, ou se morri por momentos, mas senti-me a acordar de um mundo diferente.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Para o meu eterno amigo Ricardo Leitão

Riks and Jane
Foi um almoço, talvez um jantar, ou só um lanche, quiçá pequeno-almoço… Não consigo ser capaz de escavar fundo o suficiente na minha fraca memória, não consigo recordar os pormenores. Sei que tu lá estavas, não sei o que vestias, sei que sorrias. E sei que subimos aquela rua para nós sagrada, sei que me cedeste a passagem algures durante o caminho - aquele, que ambos sabemos de cor -, sei que não eras o único naquela caminhada, mas o mais importante é que sei que te tornaste único, no preciso momento em que começamos a caminhar lado a lado.
Lembro-me tão bem do que me contaste, da maneira como os teus olhos brilhavam, da maneira com que eu te consegui ver por dentro, sem esforço nenhum. Talvez por estar “farta” de saber quem tu eras, não consigo ter a certeza. És genuíno, é essa a maior das verdades e foi a primeira coisa em que eu reparei. Após alguns dias – ou meses - chamaste-me guardadora de segredos. Ainda hoje sorrio, quando penso nisso. Nesse dia – ou mês – já eu sabia que eras bem mais do que genuíno… Eras um amigo, um daqueles amigos que duram mais do que uma vida inteira.
Podia escrever um livro sobre conversas de sótão. Até podia “colocar uma capa de couro” na história daquele sótão. Mas para quê? Para quê contaminar a perfeição com meras palavras? Para nós, seriam bem mais do que palavras, seriam marcas de um passado com cheiro a presente e sabor a futuro! Mas o mundo – ah, este pútrido mundo – só veria palavras ocas. Porque nós somos só os loucos, os enfermos do coração. Eu vou estar sempre aqui, com os “sermões de Janine ao coração do Ricardo”; sei que vais estar sempre aí, com esse sorriso, essas palavras preciosas pela noite dentro, esse entusiasmo e paixão pela vida, que tanto me consegue contagiar. Somos diferentes, sabes que somos. Mas isso não importa, o sangue que o meu coração pulsa é da mesma cor do teu.
Passaram pouco mais de dois anos, desde aquele dia… Consegues acreditar? Eu era capaz de jurar que te conheci a minha vida inteira.
Vou estar aqui de hoje a cem anos, a dar-te os Parabéns!
domingo, 4 de julho de 2010
O vazio que nunca existe
Já perdi a conta à quantidade de vezes que falei em vazio, no meu vazio. Cheguei à conclusão que ninguém tem vazios, porque o vazio não existe. É só mais um dogma, como outro qualquer.
Os cientistas falam no vazio como sendo o Espaço, os crentes falam em Deus como entidade superior ao Homem… Não há grande diferença entre eles. Ambos descrevem ao pormenor uma suposta realidade concreta, que pode não existir. Cabe-nos a nós construir uma opinião, ser crente ou descrente, questionar ou aceitar.
Ouvi dizer que uns cientistas andaram a brincar aos Deuses e criaram matéria a partir do vazio. Pensei sobre o assunto e criei uma opinião: isso só foi possível devido ao facto do vazio não ser real. Tem que existir algo no vazio, que foi capaz de gerar matéria e transformar Homens comuns em Deuses. Mas não é isso que me interessa, não sou exactamente uma menina da ciência.
O que me interessa é o vazio intelectual, de que tantos autores falam. Também não existe. É impossível não sentir nada! A partir do momento em que pensamos, a partir do momento em que somos, sentimos. Seja lá o que for, temos que sentir alguma coisa! Pode haver uma lacuna, há sempre alguma característica na nossa formação que não está de acordo com as leis ditas normais. Isso pode dar uma ilusão de vazio, mas na realidade não existe vazio nenhum. Só existe uma característica anormal, um sentimento que não era suposto existir em determinada pessoa.
Sentimos um vazio? Não. Nunca vazio, tal coisa não passa de uma ilusão, de uma metáfora para a mescla de sentimentos que supostamente não deveriam existir!
Os cientistas falam no vazio como sendo o Espaço, os crentes falam em Deus como entidade superior ao Homem… Não há grande diferença entre eles. Ambos descrevem ao pormenor uma suposta realidade concreta, que pode não existir. Cabe-nos a nós construir uma opinião, ser crente ou descrente, questionar ou aceitar.
Ouvi dizer que uns cientistas andaram a brincar aos Deuses e criaram matéria a partir do vazio. Pensei sobre o assunto e criei uma opinião: isso só foi possível devido ao facto do vazio não ser real. Tem que existir algo no vazio, que foi capaz de gerar matéria e transformar Homens comuns em Deuses. Mas não é isso que me interessa, não sou exactamente uma menina da ciência.
O que me interessa é o vazio intelectual, de que tantos autores falam. Também não existe. É impossível não sentir nada! A partir do momento em que pensamos, a partir do momento em que somos, sentimos. Seja lá o que for, temos que sentir alguma coisa! Pode haver uma lacuna, há sempre alguma característica na nossa formação que não está de acordo com as leis ditas normais. Isso pode dar uma ilusão de vazio, mas na realidade não existe vazio nenhum. Só existe uma característica anormal, um sentimento que não era suposto existir em determinada pessoa.
Sentimos um vazio? Não. Nunca vazio, tal coisa não passa de uma ilusão, de uma metáfora para a mescla de sentimentos que supostamente não deveriam existir!
sábado, 19 de junho de 2010
O dia em que o mundo parou
Ontem, o mundo consumiu duas grandes pessoas. A esperança ainda me manda acreditar que este mesmo mundo se encarregou de restabelecer o equilíbrio entre a honra e o infortúnio. Gosto de crer que nasceram outras duas grandes criaturas.
Hoje, celebrou-se a morte. O sol passava baixo, declamava fim de tarde no clarão quente que insistia em me cegar os passos. Ouvi alguém explicar que devemos caminhar quando a nossa sombra é grande. Baixei os olhos ao alcatrão e permaneci imóvel, pensativa… Talvez, acompanhados por tal silhueta, nunca nos sintamos sozinhos. Com tal ideia chegou o inicio da última e mais delicada caminhada.
O silêncio acompanhava-nos, lado a lado, sem se deixar contaminar, nem por uma milésima de segundo. Ouviam-se solas a bater no chão, ritmicamente. Poc, poc, poc, poc… De toda aquela envolvência nasciam rostos pesados, olhos vincados em expressões tristes, mãos fechadas em jeito de revolta, mãos dadas em jeito de amparo…
Os sons rítmicos tinham dado lugar a murmúrios abafados. Finalmente, as cordas desceram, as rosas brancas caíram... Aquela nuvem de figuras disformes dispersou, num adeus para sempre, mas até sempre.
Hoje, celebrou-se a morte. O sol passava baixo, declamava fim de tarde no clarão quente que insistia em me cegar os passos. Ouvi alguém explicar que devemos caminhar quando a nossa sombra é grande. Baixei os olhos ao alcatrão e permaneci imóvel, pensativa… Talvez, acompanhados por tal silhueta, nunca nos sintamos sozinhos. Com tal ideia chegou o inicio da última e mais delicada caminhada.
O silêncio acompanhava-nos, lado a lado, sem se deixar contaminar, nem por uma milésima de segundo. Ouviam-se solas a bater no chão, ritmicamente. Poc, poc, poc, poc… De toda aquela envolvência nasciam rostos pesados, olhos vincados em expressões tristes, mãos fechadas em jeito de revolta, mãos dadas em jeito de amparo…
Os sons rítmicos tinham dado lugar a murmúrios abafados. Finalmente, as cordas desceram, as rosas brancas caíram... Aquela nuvem de figuras disformes dispersou, num adeus para sempre, mas até sempre.
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