As cidades destes tempos são feitas de jardins. Lembraram-se
agora que as árvores e os insectos são mais importantes que leões e tigres
enjaulados. O problema desses jardins é o excesso de simetria. A natureza não
tem espaço para crescer como lhe apetece. Achamos que a podemos ensinar a ser,
tal e qual fazemos uns com os outros.
O rio vai continuar a correr para o mar e, contra isso, nada
podemos fazer. Ainda assim, há às vezes a ilusão de que desliza para a montanha,
torna-se difícil orientar os sentidos e correr para o lugar certo. Apesar de
tudo, nestes jardins, as pessoas movem-se devagar. Os passos são lentos, como
se as pernas discutissem constantemente para que lado é o Norte. Deslocam-se
num compasso muito especial, quase como se caminhassem ao som de um Nocturno de
Chopin. Os braços vão balançando alternadamente em redor dos corpos, os cabelos
esvoaçam e por vezes encobrem os rostos. Algumas destas pessoas até sorriem e dão
as mãos.
Por mais que a caminhada seja lenta, há bancos em todo o
lado. Há velhotes sentados, com ambas as mãos apoiadas em bengalas de madeira,
como se mesmo em repouso precisassem de ajuda para suportar o peso e a idade.
Conversam e gesticulam, soltam gargalhadas sonoras que se fundem com o ruído dos
chafarizes. Há casais que dividem metade de um só banco; há amigos que se
estendem na relva; há passeios com cães; há atletas; há os que mascaram a
solidão no ecrã de um smartphone; há
os que passam e os que, como eu, vêm estes jardins como um sítio onde é
permitido existir sozinho.
As pessoas de agora têm mais fobia de serem vistas sozinhas
do que da própria solidão. O que seria de nós se o resto do mundo percebesse que
estamos sozinhos? Valem mais as conversas vazias de uma mesa de café do que os
diálogos inóspitos que só acontecem dentro da nossa cabeça.
As pessoas vão aos jardins para rir e para chorar, para
abraçar e discutir, para pensar e parar de pensar. Talvez o intuito dos jardins
não seja manter a natureza no meio de nós. Talvez eu mesma me sirva de um falso
bucolismo para pôr os pés no chão e interromper uma deriva na estratosfera, sem
saber se me deixe ser engolida pela Terra ou me perca no espaço.
Sento-me em bancos de jardim demasiadas vezes. Acho que o
faço na esperança de um dia me levantar e deixar a saudade, a raiva e o amor
sentados lado a lado. Por vezes, sento-me e sinto-me um ser humano e levanto-me
como um corpo. Mas eles não ficam sentados, antes correm atrás de mim e não se
deixam enganar pela corrente. Assim que enfio a chave na fechadura da porta de
casa, já eles me possuíram outra vez. Espero um dia deixar de precisar de
jardins. Porque, para mim, os jardins foram feitos para “sentir tudo de todas
as maneiras”.